À MESA COM DOMINGOS: A sua mesa na casa de Caleruega

2ª Conferência: A sua mesa na casa de Caleruega

Somos fruto de uma educação, de uma casa, de uma família. A fé, mas também a partilha, a sensibilidade aos problemas dos outros e dos seus sofrimentos vêm-nos do berço onde nascemos. Também isso acontece com S. Domingos tal como Rodrigo de Cerrato nos diz na vida de S. Domingos que escreveu na segunda metade século XIII. Escutemos o texto em que trata do perfil de sua mãe a Beata Joana de Aza: “A sua mãe era muito compassiva; em certa ocasião em que, por disposição de Nosso Senhor, estava ausente o venerável Féliz, pai de S. Domingos, a sua mãe, contemplando a angústia dos necessitados, e depois de dar muitas voltas ao que era seu, repartiu entre os pobres um tonel que estava cheio de vinho, que era muito célebre naquele lugar. Quando voltava, já próximo de Caleruega saíram ao encontro do seu marido vizinhos que lhe comunicaram que o vinho tinha sido distribuído pelos pobres. Quando chegou casa, diante de todos os vizinhos, disse à sua mulher que lhes mandasse servir o vinho daquela cuba. Temendo ela uma não pequena confusão, entrou na adega onde estava a mencionada cuba de ajoelhando-se, orou ao Senhor dizendo: “Senhor Jesus Cristo, ainda que não seja digna de ser escutada por causa dos meus méritos, atende-me por meu filho e teu servo a quem consagrei ao teu serviço”. A mãe estava convencida da santidade do filho. Tendo-se levantado cheia de confiança, dirigiu-se ao tonel que encontrou a transbordar de um vinho delicioso. Agradecendo ao Senhor de todos os bens, mandou-o repartir pelo seu marido e pelos demais presentes. Todos ficaram admirados”.

Sempre gostei muito deste relato. De noviço gostava de descer a este lugar onde se identificou ser a adega da casa dos pais de S. Domingos e passar ali um momento de oração. O lugar é calmo e a sua obscuridade convida ao recolhimento.

Uma primeira nota que acerca deste texto é a sua ligação com o que o precede: esta referência à vida da mãe de S. Domingos segue à referência aquilo que S. Domingos fez em Palência ao vender os seus livros, anotados por mão própria para matar a fome às vítimas da situação difícil que a cidade vivia. Por isso o texto começa: “Na verdade…”

O autor quer assim dizer que a generosidade que Domingos manifestou para com os pobres vinha-lhe da educação materna onde aprendeu um jeito de estar e de ser. Os valores aprendidos na família são um fundamento importante para uma vida consagrada. De casa Domingos trouxe o conceito de generosidade que desenvolveu com as cores do Evangelho.

Porém gostava de trazer à nossa reflexão uma outra dimensão deste milagre que sendo belo pode ficar preso ao pitoresco da situação.

Na nossa cultura popular conhecemos o milagre atribuído à Rainha Santa, quando o pão se transforma em flores num dia frio de Janeiro. Não vou fazer exegese do texto nem sequer pronunciar-me sobre a sua autenticidade, afinal sempre podemos afirmar que Santa Isabel foi uma grande mulher cheia de uma grande caridade para com os pobres e aflitos, como o tinha sido Santa isabel de Hungria sua parente, que com ela partilhou a mesma espiritualidade franciscana. Na vida destas santas faz-se referência ao pão, essencial para matar a fome.

No caso da beata Joana não é de pão que falamos, mas de vinho. Parece que o vinho não é essencial à vida como o é o pão.

Esta constatação sempre me intrigou. O próprio Domingos vendeu os seus livros para matar a fome. A água sempre abundante na fonte da estrada que conduz a Valdeande, aldeia próxima de Caleruega dá água suficiente para matar a sede.

Mas quais são as sedes do homem?

O Cardeal Tolentino há uns anos pregou à Cúria Pontifícia um retiro sobre a sede. A sede mais funda do homem é aquela a que só Cristo pode responder, aquela que nos leva a aproximar-nos de Cristo e a beber do cálice do seu sangue que para nós escorre a partir da cruz.

Há uma sede que a água não sacia se não for transformada em vinho como nas bodas de Caná.

Há sede de alegria, sede de razões de viver que só o vinho novo da graça. Estou a falar com irmãs cuja fundadora intuiu que não basta o pão para não ter fome, é preciso educar. Há muitas coisas na vida que que vão para além das necessidades fisiológicas, mas sem as quais não podemos, de fato viver. Os tempos de pandemia mostraram a muitos dos nossos idosos que apesar dos bons cuidados prestados nas instituições onde se encontravam internados a falta do abraço e da proximidade dos seus dava à vida um travo amargo. Podemos até ter tudo, mas esse tudo não é senão uma mão cheia de nada.

O milagre da adega de Caleruega como o das bodas de Caná conduz-nos a refletir sobre a essencialidade do necessário para a vida que vai bem mais além do que os umas fatias de pão ainda que do melhor trigo.

Afinal o que é essencial à vida? A mesa da casa de Féliz e Joana em Caleruega como a mesa representada na Mascarella falam-nos de essencialidades, que devemos ter em conta.

Vou falar de algumas que me parecem fundamentais:

Ter respostas para as grandes interrogações, que por vezes me queimam por dentro: donde venho? Para onde vou? Que sentido tem a minha vida?

Ser considerado como pessoa. Ultimamente tem-me acontecido ler bastante sobre o holocausto judeu; a par do sofrimento, da fome, do medo, pairava naquela gente o sofrimento de já não serem tidos como pessoas.

Descobrir caminhos de felicidade. No percurso de muita gente acumulam-se experiências de busca de felicidade onde esta não se encontra, caminhos errados que esvaziam, que encolhem a alma. Porventura interrogo-me se mostramos com a nossa vida viver um caminho de felicidade sem, porventura, esconder a dificuldade, luta interior e mesmo o fracasso.

– O encontro com o rosto bondoso de Deus. Tanto caminhos e descaminhos para o encontro com Deus. O erro que Domingos encontrou no caminho de tanta gente que buscava um Deus e que encontrou caminhos de desafirmação da bondade da sua Criação, incentivou-o no compromisso com o anúncio do verdadeiro Deus.

Afinal é preciso oferecer o vinho novo, substituir a água das talhas por um vinho que permita a continuação da festa das núpcias do Cordeiro com a humanidade. Possivelmente os convidados de Caná e de Caleruega terão bebido bem, talvez tenham ficado com coração alegre como sugere o Salmo. Nestes dias, logo na primeira conferência do Cardeal Cantalamessa à Cúria Pontifícia o pregador da Casa Pontifícia aludia à “sóbria ebriedade” que o Espírito provoca no coração do crente. Servir o vinho em Caleruega, servir a Palavra, é servir a bebida que se toma com aquela “epiousion” (sobre substancial) aquele do qual “omnem delectamentum in se habentem” (que contém toda a doçura). Uma bebida e um alimento que saciam dimensões da pessoa humana em dimensões de uma outra essencialidade.

Pode parecer que nos afastámos muito do conto original com que iniciámos esta segunda reflexão, ou talvez não. Naquela tarde em Caleruega serviu-se o vinho da alegria, da convivialidade que sustentou os que nada tinham e deu esperança aos que tinham alguma coisa. Também este sinal é preanuncio dessa mesa representada na Mascarella em que irmãos retomam as forças para recomeçar o caminho do serviço do anúncio do vinho novo do Espírito.

Por certo que na sua casa paterna e materna começou aquele milagre o da vida de alguém ao serviço dessa ébria alegria que perscruta apenas no olha para Salvador.

Seremos nós capazes de oferecer esse vinho de alegria e fraternidade.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


À MESA COM DOMINGOS: O jubileu da santidade de Domingos

Retiro: À MESA COM DOMINGOS

Fátima, 7 a 12 de Março 2021

1ª Conferência: O jubileu da santidade de Domingos

Em 6 de Agosto de 1221, S. Domingos falecia em Bolonha, deixando os seus religiosos chorosos pela sua partida, mas confortados pela sua promessa de que lhes seria mais útil no Céu que na terra.

A Ordem escolheu como ícone deste tempo de jubileu uma pintura em que S. Domingos é representado sentado à mesa. Esta “tavola”, como ficou conhecida, é um painel de 43/572cm, conservado na igreja bolonhesa de Santa Maria della Mascarella. Este lugar e foi a primeira casa que os dominicanos tiveram em Bolonha quando aí chegam em 1218, antes de se transferirem para S. Nicola delle Vigne sob os auspícios da família da Beata Diana Andaló.

Esta pintura é a mais antiga representação de S. Domingos. O nosso fundador está já cingido de uma auréola, o que indica já ter sido canonizado, o que aconteceu em Julho de 1234. A pintura foi indicada com sendo obra de um autor ignoto do norte de Itália e realizada entre 1235 e 1250. Por ser a primeira representação de S. Domingos, é importante refletir porque terá sido essa a forma escolhida para o fazer. Certamente que tem a ver com a referência com o célebre milagre de Domingos no convento de S. Sixto (milagre ao qual voltaremos num outro momento) mas o significado desta representação vai certamente mais longe.

S. Domingos é representado rodeado por 24 irmãos (12+12), algum comentador diz que parecem vir de todas as partes da Europa, talvez para um Capítulo Geral, que naqueles tempos era anual, e se reunia uma vez em Paris e outra em Bolonha. Mais que qualquer milagre que aqui não se encontra figurado vê-se apenas um irmão no meio dos irmãos à mesa e este é definitivamente a coisa mais importante e cheia de consequências.

Na carta com que o Mestre da Ordem abre este ano jubilar afirma o seguinte:

« Le thème de la célébration du jubilé est À table avec saint Dominiquequi s’inspire de la table Mascarella, la table sur laquelle le premier portrait de saint Dominique a été peint peu après sa canonisation. Ainsi, nous célébrerons saint Dominique non pas comme un saint seul sur un piédestal, mais comme un saint jouissant de la communion d’un repas avec ses frères, réunis par la même vocation de prêcher la Parole de Dieu et de partager le don de nourriture et de boisson de Dieu ».

Gostava de sublinhar duas ideias que me parecem fundamentais: a primeira a ideia do pedestal. Muitas vezes as imagens dos santos estão mesmo sobre um pedestal que, de alguma maneira, nos leva a pensar na distância entre o santo e a nossa vida. Devo dizer que não tenho nada contra isso, mas devemos estar despertos para uma ideia de santidade mais próxima, atrevo-me a dizer mais humana e menos celestial. Fico contente que a primeira representação do nosso Pai seja a de um homem, embora nimbado pelo sinal da santidade, próximo, alegre irmão entre os irmãos à volta de uma mesa. Nada de extraordinário, tudo é próximo, tudo é humano.

Há outras representações de Domingos que eu gosto muito. Aprecio uma do El Greco, Domingos parece uma tímida flama de uma vela, que certamente alumia e aquece, ou de Angélico, tão conhecida acentuando o seu aspeto contemplativo. Mas esta é a primeira de todas: a de um irmão entre os irmãos, partilhando com eles o pão. Esta é uma dimensão da santidade de Domingos que nunca é demais enfatizar.

A segunda dimensão é a de uma santidade que cresce na fraternidade, não cresce sozinha, não é uma coisa rara. O santo aparece muitas vezes como uma coisa rara, com dons que o afastam do comum dos mortais. Nada de uma santidade rara, mas também nada de uma santidade a florescer à margem da fraternidade. Esta santidade de Domingos manifesta-se antes de mais na vivencia com os outros, na construção da comunidade, no ser como lhe foi chamado “consolator fratrum”. Podemos conceber a santidade com o conceito “de apesar de…” para perceber uma santidade com os outros, uma santidade ao serviço dos outros”.

Ao refletir nestas coisas vem-me ao espírito esta passagem da Escritura:

“1 A sabedoria construiu sua casa; ergueu suas sete colunas.

2 Matou animais para a refeição, preparou seu vinho e arrumou sua mesa.

3 E enviou as servas para fazerem convites desde o ponto mais alto da cidade, clamando:

4 “Venham todos os inexperientes! ” Aos que não têm bom senso ela diz:

5 “Venham comer a minha comida e beber o vinho que preparei”.

A santidade de Domingos aparece-nos como uma refeição que Domingos preparou para nós, foi ele que no-la preparou para nós e essa refeição parte da experiência da vida fraterna.

A Regra de S. Agostinho que todos professámos começa por lembrar:

1. Isto é o que vos mandamos observar a vós que estais no mosteiro.
2. Em primeiro lugar, já́ que para isto vos reunistes na comunidade, vivei unânimes na casa e tende uma só́ alma e um só́ coração dirigidos para Deus.
3. E não tenhais nada como próprio, mas tudo vos seja comum.”

O nosso último Capítulo Geral manifesta grande preocupação por um mal que é muito próprio da vida religiosa dos dias de hoje: o individualismo. Os meios tecnológicos, que são uma grande mais valia dos dias de hoje, nem sempre ajudam a uma sã relação com os irmãos. O individualismo é uma ameaça real para a nossa vida comum.

Certamente não chegaremos ao que eu próprio observei aqui há uns anos num restaurante de Roma: cinco pessoas à mesa interagindo cada uma com o seu telemóvel e, por meio dele, comunicando com alguém que ali não estava, mas não comunicando com quem estava ali à sua frente.

A nossa época e as nossas comunidades não escapa vive graves deficiências na capacidade de comunicar. Os meios tecnológicos ajudam e agravam um mal que sempre encontrámos: estar dentro com o coração fora.

A santidade de Domingos ajuda-nos a perceber uma forma de santidade orientada para o irmão/irmã, que vive contigo, que está ao teu lado, com o qual deves estabelecer uma relação profunda: “um só coração e uma só alma” Ac 4,32.

Um quadro traça um modelo de santidade daquele a quem chamamos Pai. A santidade de Domingos gera comunhão, gera família, gera fraternidade numa dimensão que somos chamados a descobrir e a aprofundar.

O meu percurso nestes dias de retiro é descobrir os diversos lugares onde Domingos se sentou à mesa, mesa lugar de comunhão, lugar de escuta, lugar de conversão, lugar de decisão. Vamos revisitar textos nossos conhecidos da vida de Domingos, não pretendo dizer nada de novo, desejo tão somente que a contemplação de Domingos reacenda em nós a beleza e o sentido da nossa vocação.

Na celebração que deu início ao jubileu o Arcebispo de Bolonha, Cardeal Zuppi afirmou: “esta mesa convida-nos à festa e à convivialidade. S. Domingos ensina-nos a vestir o vestido de festa, porque esta mesa é alegria, é plenitude…”

Contemplamos uma santidade tão humana, tão próxima, tão alegre, tão afetuosa.

Desde já peço desculpa por todas as vezes em que não poderei dizer por palavras capazes aquilo que só o coração pode exprimir. Tudo isto só se descobre se nos sentarmos à mesa com Domingos e isto é o convite para o nosso percurso.

Não sejamos como o Mr. Bean que adormecia olhando para os quadros que tinha por missão guardar. Nós temos um quadro onde um projeto de vida se desenha para nós.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


Carta do M.O. – Santa Margarida Di Castello

Roma, 24 abril 2021
Prot. 74/18/547 Margherita di Città di Castello
Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me colherá, Salmo 27:10


A todos os Provinciais e Vice-provinciais,
A todos os membros da Família dominicana

Caros irmãos e irmãs,

Com gratidão a Deus, doador de todas as coisas boas, tenho o prazer de anunciar a canonização iminente (canonização equipolenta) da nossa irmã MARGARIDA DE CITTÀ DI CASTELLO (Margherita della Metola – 1287-1320).

A história da nova santa da Família Dominicana é ao mesmo tempo desoladora e comovente. Ela nasceu cega, tinha a coluna vertebral deformada, um braço malformado, uma perna mais curta que a outra, foi mantida escondida dos olhos curiosos durante toda a sua infância e mais tarde foi abandonada pelos seus pais. Foi adoptada por uma família devota e amorosa e tornou-se uma «terceira» dominicana (mantellata). Embora parecesse precisar de obras de misericórdia corporal devido à sua condição física, a Beata Margarida realizou obras de misericórdia corporal inspiradoras: cuidou dos doentes, confortou os moribundos e visitou os prisioneiros. Ela era como a pobre viúva da parábola que deu generosamente apesar de não ter quase nada (Lucas 21:1-4).

A Beata Margarida era cega, mas via a bondade nas pessoas; nasceu com uma discrepância estrutural no comprimento das pernas, mas caminhava com graça porque sabia que andava humildemente na presença de Deus.

A Beata Margarida amava com um coração magnânimo, embora não fosse amada quando era criança. Na verdade, ela era uma “curandeira ferida”, uma pessoa com uma deficiência que permitia que aos outros serem  melhores, uma proscrita que acolhia os quebrados; de facto, ela era uma bela imagem do amor transformador de Deus.

A veneração da Beata Margarida como mulher santa de Deus esteve circunscrita à Itália e à Ordem Dominicana até ao século XIX. Graças aos membros da família dominicana que promoveram o seu exemplo de santidade, ela tornou-se conhecida como uma santa mulher de Deus e venerada não só na Úmbria e nas Marcas em Itália, mas também nos Estados Unidos da América e nas Filipinas.

A pedido da Ordem, de fiéis leigos, religiosos e religiosas de todo o mundo, cardeais e bispos, o Papa Francisco aprovou a canonização da Beata Margarida em 24 de Abril de 2021. Agradeço à Postulação da Ordem que, desde o tempo do Fr. Innocenzo Venchi op. até ao do Fr. Gianni Festa op.,  trabalharam com grande dedicação e diligência para realizar a canonização da nossa bela e abençoada Irmã Margarida.

Alguns de vós podem perguntar-se: já temos tantos santos, e o nosso calendário litúrgico está quase cheio de festas e memórias, porque é que continuamos a promover causas de santidade? Fazemo-lo porque, como Fr. Gianni nunca se cansa de nos lembrar que “a santidade destes irmãos e irmãs é um sinal visível da vitalidade e actualidade da Ordem“. A canonização de Margarida di Castello representa para todos nós uma confirmação renovada de que a vida dominicana, em toda a sua plenitude e riqueza, é verdadeiramente um caminho de santidade.

Por conseguinte, peço aos priores provinciais e superiores da família dominicana que façam circular esta carta, juntamente coma breve biografia da nova santa que a acompanha nas vossas comunidades, especialmente nas casas de formação. Em especial,  encorajo-vos a juntarem-se a nós em oração, quando, em Città di Castello, numa data a anunciar posteriormente, tiver lugar a cerimónia oficial da inscrição da Beata Margarida no Livro dos Santos, durante a celebração da Eucaristia presidida pelo Cardeal Marcello Semeraro, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos.

Que Santa Margarida de Città di Castello interceda junto do Senhor por toda a Família Dominicana.

Fr. Gerard Timoner, OP, Mestre da Ordem

PEQUENO ESBOÇO BIOGRÁFICO

Margarida nasceu por volta de 1287 no castelo de Metola, em Massa Trabaria (na fronteira entre a Umbria e as Marcas), não muito longe do Mercatello del Metauro, nos territórios da Igreja. O seu pai Parisio era o senhor do castelo, e era chamado ‘cattano’ (capitão), um título que já pertencia aos seus antepassados; o nome da sua mãe era Emilia.

Mas a criança tinha entrado no mundo cega e deformada, e os seus pais nobres e ricos não podiam suportar uma vergonha que ofendesse o orgulho da família. Então o pai trancou a sua filha numa cela adjacente à igreja do castelo para que “a vergonha” ficasse escondida dos olhos do mundo. A menina aceitou esta decisão sem se revoltar, mantendo intacta a sua serenidade. Passou a sua infância na solidão, dedicando-se à oração e à contemplação, em comunhão com Deus, numa profunda quietude e paz espiritual. Após uma curta estadia num castelo em Metauro, necessária após as revoltas militares na região, os seus pais levaram-na a Città di Castello, ao túmulo de Giacomo († 1292), um frade leigo franciscano que tinha morrido recentemente em odor de santidade. Eles esperavam que o abençoado pudesse trazer a cura da sua filha, mas o milagre há muito esperado não aconteceu. Tendo esta última tentativa falhado – diz-nos uma biógrafa do século XIV – abandonaram-na em Castello “sem piedade, sozinha, sem pensar nas suas necessidades, privada de toda a ajuda humana“.

Durante algum tempo, a rapariga indefesa levou uma vida perdida, mendigando pão; depois encontrou refúgio no pequeno mosteiro de S. Margherita. Mas foi um breve parêntese, porque a sua conduta de vida, o ascetismo rigoroso que observou, os seus avisos suscitaram a inveja das freiras. Incapazes de suportar a comparação com um exemplo tão inatingível, as freiras também a mandaram embora com muitas acusações e insultos. Após esta enésima traição, Margherita foi finalmente acolhida por um casal profundamente piedoso, Venturino e Grigia, que lhe reservaram um pequeno quarto na parte superior da sua casa, para que pudesse dedicar-se livremente à oração e à contemplação. A sua generosidade seria recompensada por Margherita, que colocou os seus carismas excepcionais ao serviço dos seus pais adoptivos e do seu círculo de família e amigos. Dedicou-se à formação e educação cristã dos filhos dos seus benfeitores, foi uma guia bondosa e autoritária para muitos que lhe procuravam conselhos e conforto, e em mais de uma ocasião protegeu os seus amigos de graves perigos. Ela também se preocupava com os pobres e miseráveis da cidade. Apesar de ser cega e deficiente, conseguiu ser uma irmã caridosa para todos os infelizes.


Na casa de Grigia e Venturino a menina passou o resto da sua curta e simples vida, dividindo o seu tempo entre a oração, a vida contemplativa e o trabalho de caridade. Ela jejuava sempre, quase nunca dormia, e quando estava sonolenta deitava-se no chão e nunca se deitava na cama.
Partilhando o sofrimento de Jesus, Margarida sentiu-se ligada ao Esposo celestial, identificou-se com ele e esta vida de união deu-lhe uma segurança e alegria inefáveis. Depois de vestir o hábito de penitência dos frades pregadores, ia diariamente à sua igreja, onde se confessava todos os dias e participava com grande devoção na celebração da Eucaristia. Muitas vezes, durante a missa, teve êxtases maravilhosos.

Quando a sua doença piorou, mandou chamar os frades para receber os sacramentos, deu graças a Deus e morreu em perfeita serenidade de espírito a 13 de Abril de 1320: Margarida tinha 33 anos de idade.


406 – Laicado Dominicano Março/Abril 2021

 


Ladaínha a São José

Senhor, tende piedade de nós
Cristo, tende piedade de nós
Senhor, tende piedade de nós
Cristo, ouvi-nos.
Cristo, atendei-nos.
Pai celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Santa Maria,
São José,
Ilustre descendente de David,
Luz dos patriarcas,
Esposo da mãe de Deus
Castíssimo guarda da Virgem,
Pai nutrício do Filho de Deus,
Chefe da Sagrada Família,
José justíssimo
José castíssimo,
José fortíssimo,
José obedientíssimo,
José fidelíssimo,
Espelho da paciência,
Amante da pobreza,
Modelo dos trabalhadores
Glória da vida de família,
Guarda das virgens,
Consolação dos infelizes,
Sustentáculo das famílias,
Esperança dos enfermos
Padroeiro dos moribundos
Protector da Santa Igreja.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senghor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.

V. Estabeleceu-o Senhor da sua casa.
R. É príncipe de todos os seus bens

V. Oremos: Ó Deus, cuja inefável providência se dignou escolher o bem-aventurado S. José para esposo da vossa Santíssima Mãe, fazei que mereçamos ter por intercessor no Céu aquele que na terra veneramos como protector: Vós, que sois Deus com o Pai, na unidade do Espírito Santo.
R. amen


Ano Família Amoris Laetitia 2021-2022

Para saber mais:

  1. brochura de apresentação
  2. Projecto

 


19 de Março – São José

Ó glorioso São José, a quem foi dado o poder de

tornar possível as coisas humanamente

impossíveis, vinde em nosso auxílio nas

dificuldades em que nos achamos.

Tomai sob vossa proteção a causa importante que vos

confiamos, para que tenha uma solução favorável.

Ó Pai muito amado, em vós depositamos toda a

nossa confiança. Que ninguém possa jamais dizer

que vos invocamos em vão. Já que tudo podeis

junto a Jesus e Maria, mostrai-nos que vossa

bondade é igual ao vosso poder.

São José, a quem Deus confiou o cuidado da mais

santa família que jamais houve, sede, nós vos

pedimos, o pai e protetor da nossa, e impetrai-nos

a graça de vivermos e morrermos no amor de

Jesus e Maria.

São José, rogai por nós que recorremos a vós.

 

 

Oração de Jorge Bergolio/Papa Francisco


Irmã Maria Domingos (1936-2021)

Do site Retalhos da vida de um frade, do fr. Fiipe Rodrigues, retiramos o seguinte texto referente à Irª Maria Domingos:

«Faleceu hoje, na sequência do Covid, a Irmã Maria Domingos, monja dominicana, fundadora do Mosteiro do Lumiar, encerrado há poucos anos. A Ir. Maria Domingos nasceu a 26 de Fevereiro de 1936. Ingressou no mosteiro de Fátima, onde fez o seu noviciado como monja dominicana. De lá partiu para o Porto, para o mosteiro dominicano que então havia lá. Em 1982, juntamente com outras irmãs, depois de terem passado algum tempo em Prouille (primeiro mosteiro da Ordem) fundam o mosteiro do Lumiar, propriedade que pertencia aos frades dominicanos irlandeses. A Ir. Maria Domingos distinguiu-se sempre pela sua forma de estar na Igreja e no mundo: simplicidade, humildade, discrição e muita alegria. Prioresa durante alguns mandatos foi sempre a alma do mosteiro, abrindo as suas portas e portões às várias pessoas e grupos que viam no mosteiro um lugar de acolhimento e de paz. Como a beleza está muito ligada à simplicidade, juntamente com as irmãs da sua comunidade cuidaram sempre, muito e bem, do exterior e do interior do mosteiro. Ensinaram-nos que a beleza está nos pequenos gestos, que o acolhimento é sempre mais belo que a recusa, que há mais alegria em dar do que em receber, que ser contemplativo é um acto de união com Deus e com as pessoas. Aquela comunidade foi um sinal do que significa viver do trabalho: os doces que fabricavam, os livros que vendiam, as conferências que promoviam, a arte que disponibilizavam fez delas uma verdadeira casa de pregação. A Ordem Dominicana deve-lhe muito e nós, dominicanos, também muito lhe devemos. Acreditamos que quando morremos voltamos para junto de Deus. Para nós, dominicanos, é mesmo ver face-a-face Aquele que contemplámos e pregámos. Que agora, junto de Deus, viva na alegria que não tem fim».


405 – Laicado Dominicano Janeiro/Fevereiro 2021


Textos e documentos referentes ao Laicado Dominicano (1982-2020)