Madre Inês Champalimaud Duff

Madre Inês Champalimaud Duff (1836-1909)

A Mãe dos pobres

No passado dia 8 de Maio, concretizou-se um sonho de alguns anos, foi inaugurada, em Aveiro, a Rua Madre Inês Champalimaud Duff. Presentes o Sr. Bispo, D. António Moiteiro, o Sr. Presidente da Câmara, Eng. Ribau Esteves, alguns Vereadores e um grupo de Irmãs Dominicanas. A homenagem começou com a celebração da Eucaristia, presidida pelo Sr. Bispo D. António Moiteiro, na Sé Catedral, antiga Igreja do Convento dos Dominicano, e a ida ao seu túmulo no Cemitério Central de Aveiro.

“A Mãe dos pobres”. Era assim que era conhecida pelo povo de Aveiro e é assim que gosto de recordar a Madre Inês. Foi esse o testemunho que deixou na cidade dos canais e foi esse o principal motivo que nos congregou nesta homenagem.

Sabemos que atrás de cada nome há uma história de vida! Uma vida com significado, uma vida que vale a pena perpetuar, guardar memória e conhecer. A Madre Inês C. Duff deixou rasto nesta cidade – na qual não nasceu – mas onde passou cerca de 25 anos e que adoptou como sua, a exemplo da Stª Joana Princesa. Como Stª Joana, a Madre Inês deixou Lisboa e foi viver para Aveiro; como ela, amou Deus acima de tudo e a Ele se consagrou; ambas amaram S. Domingos e escolheram a Ordem Dominicana para fazerem a sua consagração; ambas se dedicaram à protecção e ajuda aos mais pobres. Foi no mesmo edifício, o Mosteiro de Jesus que viveram longos anos, dedicadas à oração e a fazer o bem. Foi aí nessa pacífica casa que as duas adormeceram no Senhor, com fama de santidade. Se no funeral de Stª Joana, (Maio de 1490) como conta a lenda, as árvores choravam, as folhas caíam; no da Madre Inês Duff (Dezembro de 1909) o povo chorava-a com a expressão: Morreu a mãe dos pobres.

Duas mulheres dominicanas que marcaram, em tempos diferentes a bela cidade de Aveiro. Stª Joana é bem conhecida e amada, desde longa data nessa sua cidade de que é padroeira. A partir de agora, a cidade quer tornar também viva e perpetuar a memória da Madre Inês Champalimaud Duff, perpetuar a sua memória sobretudo pela dimensão da sua caridade e solidariedade, pelo testemunho do Evangelho que ali deixou.

Nascida em Lisboa, em 1836, amiga de Teresa de Saldanha – a fundadora da Congregação das Dominicanas – e sua colaboradora na obra educativa da Associação Protectora das Meninas Pobres, ambas percorreram as ruas e os bairros mais pobres da capital, auxiliando os necessitados.

Sentindo-se seduzida por Jesus, Josefina, seu nome de baptismo, partiu para a Irlanda a 29 de Novembro de 1868, para fazer a formação inicial, o Noviciado, na Congregação Dominicanas de Stª Catarina de Sena. Professou, em Drogheda, no dia 4 de Maio de 1870, há 151 anos, e regressou a Portugal em Dezembro do mesmo ano. Exerceu uma influência relevante nas primeiras Irmãs da Congregação, quer como Mestra de Noviças, quer como conselheira e colaboradora de Teresa de Saldanha, na orientação da Congregação.

Desenvolveu enorme acção educativa, na abertura e direcção de várias escolas, destacando-se uma aula de instrução primária para rapazes.

Em Aveiro, a Madre Inês revelou-se como grande pedagoga, durante os vinte e cinco anos (1884-1909) de direcção no Colégio de Santa Joana Princesa. Conservando tudo o que era digno de ser respeitado pelo valor histórico ou artístico, soube transformar o vasto Convento de Jesus em salas de aula, orientou um estabelecimento de educação aberto a todas as classes sociais com grande sabedoria e inteligência.

O que sobressai, porém, na sua vida é a dimensão da sua caridade que a tornou muito querida de todos: «Diversas pessoas, ao serem recebidos por ela, confessavam que se julgavam em frente da Rainha Santa Isabel de Portugal, tal a delicadeza do seu porte. Havia nela uma simpatia, uma suavidade e doçura que a todos conquistava. Muita gente da cidade procurava o seu conselho. Os pobres viam nela uma mãe! Quantas lágrimas secou, quanta pobreza envergonhada socorreu! A Madre prioresa, como era conhecida em toda a cidade, era a consolação de todos os aflitos e a alegria de quantos a conheciam.»

A sua obra caritativa, a competência e o método educativo, baseado no amor pela criança e pela jovem que se revelava em respeito, atenção, dedicação, foram manchete em vários jornais.

O Papa Francisco deu o significativo título à sua notável encíclica Fratelli Tutti – Todos irmãos. E os jornais da época dizem isso mesmo da Madre Inês Duff: Amava as criancinhas como a melhor das mães, queria aos pobres e aos desgraçados como se todos fossem seus irmãos. Tinha requintes de galanteria para grandes e pequenos, interessava-se pela felicidade e bem estar de conhecidos e desconhecidos. Não havia virtude que não possuísse, caridade que não exercesse.

Podemos dizer que a Madre Inês viveu um amor que valorizava todas as pessoas, que semeou a paz, andou junto dos pobres, abandonados, doentes… dos últimos. Ela, qual bom samaritano, assumiu como própria a fragilidade dos outros, fazendo-se próxima de todos os que se encontravam caídos nas margens da vida. Reconheceu em cada irmão abandonado ou excluído o próprio Cristo.

O jornal O Progresso de Aveiro escreveu: “…espírito moderno, pessoa da sua época e possuidora de uma casta e sólida ilustração que se associou com a maior espontaneidade às alegrias e às dores dos aveirenses”. Estamos muito gratas por esta homenagem a mais um fruto de santidade da árvore de S. Domingos, tão verdejante em Aveiro.

Lisboa, Maio de 2021

                                                                                          Ir. Rita Maria Nicolau


Pregador da Graça: Carta do Papa Francisco ao Mestre da Ordem por ocasião do 800º aniversário do falecimento de São Domingos

Ao Irmão Gerard Francisco Timoner, O.P,

Mestre Geral da Ordem dos Pregadores

Praedicator Gratiae: entre os títulos atribuídos a São Domingos, o de “Pregador da Graça” destaca-se pela sua consonância com o carisma e a missão da Ordem por ele fundada. Neste ano que marca o oitocentenário da morte de S. Domingos, associo-me de bom grado aos frades pregadores para agradecer a fecundidade espiritual desse carisma e missão, vista na rica variedade da família dominicana, tal como tem crescido ao longo dos séculos. As minhas saudações orantes e bons votos vão para todos os membros dessa grande família, que abraça as vidas contemplativas e obras apostólicas das suas freiras e irmãs religiosas, das suas fraternidades sacerdotais e leigas, dos seus institutos seculares e dos seus movimentos juvenis.

Na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate expressei a minha convicção de que “cada santa é uma missão, planeada pelo Pai para reflectir e encarnar, num momento específico da história, um certo aspecto do Evangelho” (n.º 19). Domingos respondeu à necessidade urgente do seu tempo não só de uma pregação renovada e vibrante do Evangelho, mas, igualmente importante, de um testemunho convincente do seu apelo à santidade na comunhão viva da Igreja. No espírito de toda a verdadeira reforma, ele procurou um regresso à pobreza e simplicidade da mais antiga comunidade cristã, reunida em torno dos apóstolos e fiel ao seu ensinamento (cf. Actos 2,42). Ao mesmo tempo, o seu zelo pela salvação das almas levou-o a formar um corpo de pregadores empenhados, cujo amor pela Sagrada Escritura e integridade de vida podia iluminar as mentes e aquecer os corações com a verdade vivificante da palavra divina.

Na nossa época, caracterizada por mudanças de época e novos desafios à missão evangelizadora da Igreja, Domingos pode assim servir de inspiração a todos os baptizados, que são chamados, como discípulos missionários, a alcançar cada “periferia” do nosso mundo com a luz do Evangelho e o amor misericordioso de Cristo. Ao falar da perene actualidade da visão e do carisma de São Domingos, o Papa Bento XVI lembrou-nos que “no coração da Igreja, um fogo missionário deve arder sempre” (Audiência de 3 de Fevereiro de 2010).

O grande apelo de Domingos era a pregação do Evangelho do amor misericordioso de Deus em toda a sua verdade salvífica e poder redentor. Como estudante em Palência, veio a apreciar a inseparabilidade da fé e da caridade, da verdade e do amor, da integridade e da compaixão. Como nos diz o Beato Jordão da Saxónia, tocado pelos que sofriam e morriam durante uma grave fome, Domingos vendeu os seus preciosos livros e, com uma bondade exemplar, estabeleceu um centro de esmolas onde os pobres podiam ser alimentados (Libellus, 10). O seu testemunho da misericórdia de Cristo e o seu desejo de levar o seu bálsamo de cura àqueles que experimentavam a pobreza material e espiritual foi inspirar a fundação da sua Ordem e moldar a vida e o apostolado de inúmeros dominicanos em tempos e lugares variados. A unidade da verdade e da caridade encontrou talvez a sua melhor expressão na escola dominicana de Salamanca, e particularmente na obra de Frei Francisco de Vitória, que propôs um quadro de direito internacional fundamentado nos direitos humanos universais. Isto, por sua vez, forneceu o fundamento filosófico e teológico para os esforços heróicos dos frades António Montesinos e Bartolomeu de Las Casas nas Américas, e Domingo de Salazar na Ásia para defender a dignidade e os direitos dos povos nativos.

A mensagem evangélica da nossa inalienável dignidade humana como filhos de Deus e membros da única família humana desafia a Igreja nos nossos dias a reforçar os laços de amizade social, a superar estruturas económicas e políticas injustas, e a trabalhar para o desenvolvimento integral de cada indivíduo e povo. Fiéis à vontade do Senhor, e impelidos pelo Espírito Santo, os seguidores de Cristo são chamados a cooperar em todos os esforços “para dar à luz um mundo novo, onde todos nós somos irmãos e irmãs, onde há lugar para todos aqueles que as nossas sociedades descartam, onde a justiça e a paz são resplandecentes” (Fratelli Tutti, 278). Que a Ordem dos Pregadores, agora como então, esteja na vanguarda de uma proclamação renovada do Evangelho, que possa falar ao coração dos homens e mulheres do nosso tempo e despertar neles a sede da vinda do reino de santidade, justiça e paz de Cristo!

O zelo de São Domingos pelo Evangelho e o seu desejo de uma vida genuinamente apostólica levaram-no a sublinhar a importância da vida em comum. Mais uma vez, o Beato Jordão da Saxónia diz-nos que, ao fundar a sua Ordem, Domingos escolheu significativamente “ser chamado, não sub-prior, mas Irmão Domingos” (Libellus, 21). Este ideal de fraternidade era encontrar expressão numa forma de governação inclusiva, em que todos partilhassem o processo de discernimento e tomada de decisões, de acordo com as suas respectivas funções e autoridade, através do sistema de capítulos a todos os níveis. Este processo “sinodal” permitiu à Ordem adaptar a sua vida e missão a contextos históricos em mudança, mantendo ao mesmo tempo a comunhão fraterna. O testemunho da fraternidade evangélica, como testemunho profético do plano último de Deus em Cristo para a reconciliação e unidade de toda a família humana, continua a ser um elemento fundamental do carisma dominicano e um pilar do esforço da Ordem para promover a renovação da vida cristã e a difusão do Evangelho no nosso próprio tempo.

Juntamente com São Francisco de Assis, Domingos compreendeu que a proclamação do Evangelho, verbis et exemplo, implicava a construção de toda a comunidade eclesial em unidade fraterna e discipulado missionário. O carisma dominicano da pregação transbordou cedo para o estabelecimento dos vários ramos da grande família dominicana, abrangendo todos os estados de vida da Igreja. Nos séculos seguintes, encontrou expressão eloquente nos escritos de Santa Catarina de Sena, nos quadros do Beato Fra Angélico e nas obras de caridade de Santa Rosa de Lima, Beato João Macias e Santa Margarida de Castello. Assim também, no nosso tempo, continua a inspirar o trabalho de artistas, estudiosos, professores e comunicadores. Neste ano de aniversário, não podemos deixar de recordar os membros da família dominicana cujo martírio foi em si mesmo uma poderosa forma de pregação. Ou os inúmeros homens e mulheres que, imitando a simplicidade e compaixão de São Martinho de Porres, trouxeram a alegria do Evangelho às periferias das sociedades e ao nosso mundo. Aqui penso em particular no testemunho silencioso dado pelos muitos milhares de leigos dominicanos e membros do Movimento da Juventude Dominicana, que reflectem o papel importante e mesmo indispensável dos leigos na obra de evangelização.

No Jubileu do nascimento de São Domingos para a vida eterna, gostaria de expressar de uma forma particular a minha gratidão aos Frades Pregadores pela notável contribuição que deram para a pregação do Evangelho através da exploração teológica dos mistérios da fé. Ao enviar os primeiros frades para as universidades emergentes na Europa, Domingos reconheceu a importância vital de proporcionar aos futuros pregadores uma sólida e sólida formação teológica baseada na Sagrada Escritura, respeitadora das questões colocadas pela razão, e preparada para se envolver num diálogo disciplinado e respeitoso ao serviço da revelação de Deus em Cristo. O apostolado intelectual da Ordem, as suas numerosas escolas e institutos de ensino superior, o seu cultivo das ciências sagradas e a sua presença no mundo da cultura têm estimulado o encontro entre fé e razão, alimentado a vitalidade da fé cristã e avançado a missão da Igreja de atrair mentes e corações para Cristo. Também a este respeito, só posso renovar a minha gratidão pela história de serviço da Ordem à Sé Apostólica, que remonta ao próprio Domingos.

Durante a minha visita a Bolonha há cinco anos, fui abençoado por passar alguns momentos em oração diante do túmulo de São Domingos. Rezei de uma forma especial pela Ordem dos Pregadores, implorando pelos seus membros a graça da perseverança na fidelidade ao seu carisma fundador e à esplêndida tradição de que são herdeiros. Ao agradecer ao Santo por todo o bem que os seus filhos e filhas realizam na Igreja, pedi, como um dom particular, um aumento considerável das vocações sacerdotais e religiosas.

Que a celebração do Ano Jubilar possa derramar abundantes graças sobre os frades pregadores e toda a família dominicana, e que abrace uma nova primavera do Evangelho. Com grande afecto, recomendo a todos os que participam nas celebrações jubilares à amorosa intercessão de Nossa Senhora do Rosário e do vosso patriarca São Domingos, e concedo cordialmente a minha Bênção Apostólica como penhor de sabedoria, alegria e paz no Senhor.

Francisco

Dado em Roma, São João de Latrão, a 24 de Maio de 2021


Trasladação de São Domingos

Este memória recorda a transferência do corpo de São Domingos por ordem do Papa Gregório IX para a sua nova tumba na actual Basílica de São Domingos em Bolonha.

O memorial da Trasladação de São Domingos recorda um acontecimento que teve lugar alguns anos após a morte do fundador da Ordem dos Pregadores, quando o Papa Gregório IX ordenou a transferência dos restos mortais de São Domingos do local de sepultamento original que tinha sido deixado em aberto, para um novo túmulo na Igreja de São Nicolau dos Vinhedos em Bolonha, agora Basílica de São Domingos em Bolonha.

Tinham passado doze anos desde a morte de São Domingos. Deus tinha manifestado a santidade do seu Servo por uma multidão de milagres realizados no seu túmulo ou devido à invocação do seu nome. Os doentes eram constantemente vistos à volta da laje que cobria os seus restos mortais, passando ali dia e noite, e regressando glorificando-o pela sua cura. Das paredes próximas pendiam ofertas votivas em memória dos benefícios que tinham recebido dele, e os sinais de veneração popular não se desvaneceram com o tempo.

Contudo, uma nuvem sobre os olhos dos Irmãos, e enquanto o povo exaltava o seu Fundador, eles, os seus filhos, em vez de cuidarem da sua memória, pareciam trabalhar para obscurecer o seu brilho. Não só deixaram o seu túmulo sem adornos, mas, por medo de serem acusados de procurarem uma ocasião de lucro no culto que já lhe fora dado, rasgaram as ofertas votivas das paredes. Alguns deploraram esta conduta, mas não se atreveram a contradizê-la abertamente. Aconteceu que, com o aumento do número de Irmãos, foram obrigados a demolir a velha igreja de São Nicolau para construir uma nova, e o túmulo do Santo Patriarca foi deixado ao ar livre, exposto à chuva e a todo o mau tempo….

Este espectáculo comoveu alguns deles, que deliberaram entre si sobre a forma de transferir essas preciosas relíquias para um sepulcro mais conveniente. Prepararam um novo túmulo, mais digno do seu Pai, e enviaram vários deles a visitar o Pontífice soberano para o consultar. O trono pontifício foi ocupado pelo velho Hugolino Conti com o nome de Gregory IX. Recebeu os enviados de forma muito dura, e censurou-os por terem negligenciado durante tanto tempo a honra devida ao seu Patriarca. Disse-lhes: “Conheci nele um homem que segue a regra de vida dos Apóstolos, e não há dúvida de que está associado à glória que eles têm no céu”. Ele até quis assistir pessoalmente à transferência; mas, impedido pelas funções do seu gabinete, escreveu ao Arcebispo de Ravena para ir a Bolonha com os seus sufragâneos para assistir à cerimónia.

Foi o Pentecostes 1233. O Capítulo Geral da Ordem tinha-se reunido em Bolonha sob a presidência da Jordânia da Saxónia, o sucessor imediato de São Domingos no Generalato.

O arcebispo de Ravena, em obediência às ordens do Papa, e os bispos de Bolonha, Brescia, Modena e Toumay estiveram na cidade. Mais de trezentos religiosos de todos os países tinham vindo. O corpo de São Domingos de Guzman foi então transferido para o seu novo túmulo numa capela lateral da Basílica de São Domingos em Bolonha, onde permanece até aos dias de hoje.

tirado de dominicos.org trad. GS


Carta Apostólica que institui o Ministério de Catequista

CARTA APOSTÓLICA
SOB FORMA DE «MOTU PROPRIO»

DO SUMO PONTÍFICE
FRANCISCO

ANTIQUUM MINISTERIUM

PELA QUAL SE INSTITUI O
 MINISTÉRIO DE CATEQUISTA

1. MINISTÉRIO ANTIGO é o de Catequista na Igreja. Os teólogos pensam, comumente, que se encontram os primeiros exemplos já nos escritos do Novo Testamento. A primeira forma, germinal, deste serviço do ensinamento achar-se-ia nos «mestres» mencionados pelo apóstolo Paulo ao escrever à comunidade de Corinto: «E aqueles que Deus estabeleceu na Igreja são, em primeiro lugar, apóstolos; em segundo, profetas; em terceiro, mestres; em seguida, há o dom dos milagres, depois o das curas, o das obras de assistência, o de governo e o das diversas línguas. Porventura são todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres? Fazem todos milagres? Possuem todos o dom das curas? Todos falam línguas? Todos as interpretam? Aspirai, porém, aos melhores dons. Aliás vou mostrar-vos um caminho que ultrapassa todos os outros» (1 Cor 12, 28-31).

O próprio Lucas afirma, na abertura do seu Evangelho: «Resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los [os factos que entre nós se consumaram] a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído» (Lc 1, 3-4). O evangelista parece bem ciente de estar a fornecer, com os seus escritos, uma forma específica de ensinamento que permite dar solidez e vigor a quantos já receberam o Batismo. E voltando ao mesmo tema, o apóstolo Paulo recomenda aos Gálatas: «Mas quem está a ser instruído na Palavra esteja em comunhão com aquele que o instrui, em todos os bens» (Gal 6, 6). Como se vê, o texto acrescenta uma peculiaridade fundamental: a comunhão de vida como caraterística da fecundidade da verdadeira catequese recebida.

2. Desde os seus primórdios, a comunidade cristã conheceu uma forma difusa de ministerialidade, concretizada no serviço de homens e mulheres que, obedientes à ação do Espírito Santo, dedicaram a sua vida à edificação da Igreja. Os carismas, que o Espírito nunca deixou de infundir nos batizados, tomaram em certos momentos uma forma visível e palpável de serviço à comunidade cristã nas suas múltiplas expressões, chegando ao ponto de ser reconhecido como uma diaconia indispensável para a comunidade. E assim o interpreta o apóstolo Paulo, com a sua autoridade, quando afirma: «Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum. A um é dada, pela ação do Espírito, uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom das curas, no único Espírito; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas. Tudo isto, porém, o realiza o único e o mesmo Espírito, distribuindo a cada um, conforme lhe apraz» (1 Cor 12, 4-11).

Por conseguinte é possível reconhecer, dentro da grande tradição carismática do Novo Testamento, a presença concreta de batizados que exerceram o ministério de transmitir, de forma mais orgânica, permanente e associada com as várias circunstâncias da vida, o ensinamento dos apóstolos e dos evangelistas (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei Verbum, 8). A Igreja quis reconhecer este serviço como expressão concreta do carisma pessoal, que tanto favoreceu o exercício da sua missão evangelizadora. Olhar para a vida das primeiras comunidades cristãs, que se empenharam na difusão e progresso do Evangelho, estimula também hoje a Igreja a perceber quais possam ser as novas expressões para continuarmos a permanecer fiéis à Palavra do Senhor, a fim de fazer chegar o seu Evangelho a toda a criatura.

3. Toda a história da evangelização destes dois milénios manifesta, com grande evidência, como foi eficaz a missão dos catequistas. Bispos, sacerdotes e diáconos, juntamente com muitos homens e mulheres de vida consagrada, dedicaram a sua vida à instrução catequética, para que a fé fosse um válido sustentáculo para a existência pessoal de cada ser humano. Além disso, alguns reuniram à sua volta outros irmãos e irmãs, que, partilhando o mesmo carisma, constituíram Ordens religiosas totalmente dedicadas ao serviço da catequese.

Não se pode esquecer a multidão incontável de leigos e leigas que tomaram parte, diretamente, na difusão do Evangelho através do ensino catequístico. Homens e mulheres, animados por uma grande fé e verdadeiras testemunhas de santidade, que, em alguns casos, foram mesmo fundadores de Igrejas, chegando até a dar a sua vida. Também nos nossos dias, há muitos catequistas competentes e perseverantes que estão à frente de comunidades em diferentes regiões, realizando uma missão insubstituível na transmissão e aprofundamento da fé. A longa série de Beatos, Santos e Mártires catequistas que marcou a missão da Igreja, merece ser conhecida, pois constitui uma fonte fecunda não só para a catequese, mas também para toda a história da espiritualidade cristã.

4. A partir do Concílio Ecuménico Vaticano II, a Igreja apercebeu-se, com renovada consciência, da importância do compromisso do laicado na obra de evangelização. Os Padres conciliares reafirmaram várias vezes a grande necessidade que há, tanto para a implantação da Igreja como para o crescimento da comunidade cristã, do envolvimento direto dos fiéis leigos nas várias formas em que se pode exprimir o seu carisma. «É digno de elogio aquele exército com tantos méritos na obra das missões entre pagãos, o exército dos catequistas, homens e mulheres, que, cheios do espírito apostólico, prestam com grandes trabalhos uma ajuda singular e absolutamente necessária à expansão da fé e da Igreja. Hoje em dia, em razão da escassez de clero para evangelizar tão grandes multidões e exercer o ministério pastoral, o ofício dos catequistas tem muitíssima importância» (Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Ad gentes, 17).

A par do rico ensinamento conciliar, é preciso referir o interesse constante dos Sumos Pontífices, do Sínodo dos Bispos, das Conferências Episcopais e dos vários Pastores, que, no decorrer destas décadas, imprimiram uma notável renovação à catequese. O Catecismo da Igreja Católica, a Exortação apostólica Catechesi tradendae, o Diretório Catequístico Geral, o Diretório Geral da Catequese, o recente Diretório da Catequese, juntamente com inúmeros Catecismos nacionais, regionais e diocesanos são expressão do valor central da obra catequística, que coloca em primeiro plano a instrução e a formação permanente dos crentes.

5. Sem diminuir em nada a missão própria do Bispo – de ser o primeiro Catequista na sua diocese, juntamente com o presbitério que partilha com ele a mesma solicitude pastoral – nem a responsabilidade peculiar dos pais relativamente à formação cristã dos seus filhos (cf. CIC cân. 774 §2; CCEO cân. 618), é necessário reconhecer a presença de leigos e leigas que, em virtude do seu Batismo, se sentem chamados a colaborar no serviço da catequese (cf. CIC cân. 225; CCEO câns. 401 e 406). Esta presença torna-se ainda mais urgente nos nossos dias, devido à renovada consciência da evangelização no mundo contemporâneo (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 163-168) e à imposição duma cultura globalizada (cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti100.138), que requer um encontro autêntico com as jovens gerações, sem esquecer a exigência de metodologias e instrumentos criativos que tornem o anúncio do Evangelho coerente com a transformação missionária que a Igreja abraçou. Fidelidade ao passado e responsabilidade pelo presente são as condições indispensáveis para que a Igreja possa desempenhar a sua missão no mundo.

Despertar o entusiasmo pessoal de cada batizado e reavivar a consciência de ser chamado a desempenhar a sua missão na comunidade requer a escuta da voz do Espírito que nunca deixa faltar a sua presença fecunda (cf. CIC cân. 774 §1; CCEO cân. 617). O Espírito chama, também hoje, homens e mulheres para irem ao encontro de tantas pessoas que esperam conhecer a beleza, a bondade e a verdade da fé cristã. É tarefa dos Pastores sustentar este percurso e enriquecer a vida da comunidade cristã com o reconhecimento de ministérios laicais capazes de contribuir para a transformação da sociedade através da «penetração dos valores cristãos no mundo social, político e económico» (Evangelii gaudium, 102).

6. O apostolado laical possui, indiscutivelmente, uma valência secular. Esta exige «procurar o Reino de Deus, tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, 31). A sua vida diária é tecida de encontros e relações familiares e sociais, o que permite verificar como «são especialmente chamados a tornarem a Igreja presente e ativa naqueles locais e circunstâncias em que, só por meio deles, ela pode ser o sal da terra» (Lumen gentium, 33). Entretanto é bom recordar que, além deste apostolado, «os leigos podem ainda ser chamados, por diversos modos, a uma colaboração mais imediata no apostolado da Hierarquia, à semelhança daqueles homens e mulheres que ajudavam o apóstolo Paulo no Evangelho, trabalhando muito no Senhor» (Lumen gentium, 33).

No entanto, a função peculiar desempenhada pelo Catequista especifica-se dentro doutros serviços presentes na comunidade cristã. Com efeito, o Catequista é chamado, antes de mais nada, a exprimir a sua competência no serviço pastoral da transmissão da fé que se desenvolve nas suas diferentes etapas: desde o primeiro anúncio que introduz no querigma, passando pela instrução que torna conscientes da vida nova em Cristo e prepara de modo particular para os sacramentos da iniciação cristã, até à formação permanente que consente que cada batizado esteja sempre pronto «a dar a razão da sua esperança a todo aquele que lha peça» (cf. 1 Ped 3, 15). O Catequista é simultaneamente testemunha da fé, mestre e mistagogo, acompanhante e pedagogo que instrui em nome da Igreja. Uma identidade que só mediante a oração, o estudo e a participação direta na vida da comunidade é que se pode desenvolver com coerência e responsabilidade (cf. Cons. Pont. para a Promoção da Nova Evangelização, Diretório da Catequese,113).

7. Com grande clarividência, São Paulo VI emanou a Carta apostólica Ministeria quaedam tendo em vista não só adaptar ao novo momento histórico os ministérios de Leitor e Acólito (cf. Carta ap. Spiritus Domini), mas também pedir às Conferências Episcopais para promoverem outros ministérios, entre os quais o de Catequista: «Além destes ministérios comuns a toda a Igreja Latina, nada impede que as Conferências Episcopais peçam outros à Sé Apostólica, se, por motivos particulares, julgarem a sua instituição necessária ou muito útil na sua região. Tais são, por exemplo, as funções de Ostiário, de Exorcista e de Catequista». O mesmo instante convite voltava na Exortação apostólica Evangelii nuntiandi, quando, ao pedir para saber ler as exigências atuais da comunidade cristã numa continuidade fiel com as origens, exortava a encontrar novas formas ministeriais para uma pastoral renovada: «Tais ministérios, novos na aparência mas muito ligados a experiências vividas pela Igreja ao longo da sua existência – por exemplo, o de Catequista (…) – , são preciosos para a implantação, a vida e o crescimento da Igreja e para a sua capacidade de irradiar a própria mensagem à sua volta e para aqueles que estão distantes» (São Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 73).

Com efeito, não se pode negar que «cresceu a consciência da identidade e da missão dos leigos na Igreja. Embora não suficiente, pode-se contar com um numeroso laicado, dotado de um arreigado sentido de comunidade e uma grande fidelidade ao compromisso da caridade, da catequese, da celebração da fé» (Evangelii gaudium, 102). Por conseguinte, receber um ministério laical como o de Catequista imprime uma acentuação maior ao empenho missionário típico de cada um dos batizados que, no entanto, deve ser desempenhado de forma plenamente secular, sem cair em qualquer tentativa de clericalização.

8. Este ministério possui uma forte valência vocacional, que requer o devido discernimento por parte do Bispo e se evidencia com o Rito de instituição. De facto, é um serviço estável prestado à Igreja local de acordo com as exigências pastorais identificadas pelo Ordinário do lugar, mas desempenhado de maneira laical como exige a própria natureza do ministério. Convém que, ao ministério instituído de Catequista, sejam chamados homens e mulheres de fé profunda e maturidade humana, que tenham uma participação ativa na vida da comunidade cristã, sejam capazes de acolhimento, generosidade e vida de comunhão fraterna, recebam a devida formação bíblica, teológica, pastoral e pedagógica, para ser solícitos comunicadores da verdade da fé, e tenham já maturado uma prévia experiência de catequese (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Christus Dominus, 14; CIC cân. 231 §1; CCEO cân. 409 §1). Requer-se que sejam colaboradores fiéis dos presbíteros e diáconos, disponíveis para exercer o ministério onde for necessário e animados por verdadeiro entusiasmo apostólico.

Assim, depois de ter ponderado todos os aspetos, em virtude da autoridade apostólica,

instituo

ministério laical de Catequista.

A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos providenciará, dentro em breve, a publicação do Rito de Instituição do ministério laical de Catequista.

9. Convido, pois, as Conferências Episcopais a tornarem realidade o ministério de Catequista, estabelecendo o iter formativo necessário e os critérios normativos para o acesso ao mesmo, encontrando as formas mais coerentes para o serviço que estas pessoas serão chamadas a desempenhar em conformidade com tudo o que foi expresso por esta Carta Apostólica.

10. Os Sínodos das Igrejas Orientais ou as Assembleias dos Hierarcas poderão receber quanto aqui estabelecido para as respetivas Igrejas sui iuris, com base no próprio direito particular.

11. Os Pastores não cessem de abraçar esta exortação que lhes recordavam os Padres conciliares: «Sabem que não foram instituídos por Cristo para se encarregarem por si sós de toda a missão salvadora da Igreja para com o mundo, mas que o seu cargo sublime consiste em pastorear  de tal modo os fiéis e de tal modo reconhecer os seus serviços e carismas, que todos, cada um segundo o seu modo próprio, cooperem na obra comum» (Lumen gentium, 30). O discernimento dos dons que o Espírito Santo nunca deixa faltar à sua Igreja seja para eles o apoio necessário para tornar concreto o ministério de Catequista para o crescimento da própria comunidade.

Quanto estabelecido por esta Carta Apostólica em forma de “Motu proprio”, ordeno que tenha vigor firme e estável, não obstante qualquer coisa em contrário ainda que digna de menção particular, e que seja promulgado mediante publicação no jornal L’Osservatore Romano, entrando em vigor no mesmo dia, e publicado depois no órgão oficial Acta Apostolicae Sedis.

Dado em Roma, junto de São João de Latrão, na Memória litúrgica de São João de Ávila, Presbítero e Doutor da Igreja, dia 10 de maio do ano de 2021, nono do meu pontificado.

Francisco


À MESA COM DOMINGOS: O testamento de Domingos

11ª Conferência: O testamento de Domingos

Para que não parecera que deixava os filhos que o Senhor lhe tinha dado, deserdados e faltos de consolo de tão grande Padre, pobre de Cristo, mas rico de fé e coerdeiro do Reino que Deus prometeu aos que o amaram, fez testamento, não de riquezas terrenas, mas de graça, não de coisas materiais, mas de virtudes espirituais; não de possessões terrenas, mas de trato celestial com Cristo. O que possuía isso legava: “Isto irmãos vos deixo em possessão por direito hereditário: tende caridade, perseverai na humildade, possui a pobreza voluntária. Oh testamento de paz! Testamento que não deve apagar-se por esquecimento, não se deve olhar com indiferença, nem mudar por nenhuma ordem que se lhe acrescente”.

Este testamento que se nos é transmitido pelo texto de Pedro Ferrando foi utilizado nas suas sugestões para a pregação pelo B. Humberto de Romans e pelo próprio Papa Gregório IX na sua carta ao Capítulo Geral de 1233. Diria pis que é um texto para levar à letra e não apenas como sugestão espiritual com um conteúdo mais ou menos nebuloso. É uma lição de espiritualidade que nos é oferecida e que devemos ter em alta consideração.

«Il demanda donc à être « sous les pieds de ses frères ». On peut probablement interpréter ce désir comme un signe d’humilité et d’abaissement. Lui qui disait qu’il serait plus utile à ses frères après sa mort veut rendre ce service en écho avec l’abaissement de Jésus, lavant les pieds de ses disciples tel un serviteur. Ainsi, cette détermination de Dominique à propos du lieu de sa sépulture pourrait bien évoquer encore son désir d’être assimilé par la grâce aux gestes même de Jésus. C’est- à-dire de Celui qui n’a pas retenu sa vie, mais a vécu sa proclamation du Royaume, l’enracinant dans le don de sa vie, offerte pour que tous aient la vie et soient accueillis dans la joie de la fraternité. Il veut continuer à être au milieu de ses frères, jusque dans la mort. Tel est le signe de ce don d’une vie « passée » à parler de Dieu avec les hommes et des hommes avec Dieu. Ce signe manifeste ainsi le sens profond de la mendicité itinérante que Jésus a vécue, par laquelle Il a prêché en donnant sa vie. C’est aussi le signe du mendiant qui, par son geste implorant, sollicite l’hospitalité de ses contemporains en même temps qu’il offre de découvrir la vie nouvelle du Royaume. « Il est venu chez les siens… » (Jn 1,11).

Esta expressão é tirada da carta com que fr. Bruno Cadoré anuncia ano jubilar da morte de S. Domingos, carta datada de 6 de Agosto de 2018. O ex Mestre da Ordem fala aqui, do desejo de S. Domingos ser enterrado sob os pés dos seus frades. Assim aconteceu, de fato, na sua morte foi sepultado em sepultura rasa no coro dos frades do convento de Bolonha (o de S. Nicollò delle Vigne). Pa acederem ao local da oração os frades teriam de pisar o túmulo do seu Pai. Apenas em 24 de Maio de 1233 o Mestre da Ordem Beato João de Vercellis ordena que se faça um túmulo novo e digno ao qual se sucede, mas já em 1383 o belíssimo sarcófago conhecido por Arca obra maioritariamente de Nicolau Pisano.

Quer em Bolonha no seu primeiro sepulcro, quer como diz a tradição no convento de Santa Sabina há este contato com a terra. No último como morada depois da morte, em Santa Sabina prostrado em oração sobre o sepulcro do mártires Sabina, Serápia, Papa Alexandre, etc. Dos modos de oração de S. Domingos também nos chega a sua oração em prostração, por terra.

Terra sinal deste mundo amado por ele, onde quis regravar os traços dos passos do Salvador. A espiritualidade de Domingos coloca-nos terra, para que esta recobre a sua vocação, originária pela criação de ser uma coisa boa, Deus viu que tudo o que tina feito era bom, muito bem. Humanidade e criação que a heresia cátara tinha mostrado como coisa má. Tudo na terra é bom é muito bem, é-o igualmente o homem e a mulher, é preciso reconhecer e restaurar essa bondade que às vezes parece fugir porque orgulhosamente quer escapar ao olhar amoroso de Deus.

Terra onde Domingos caminhou descalço para nos mostrar que tudo é terreno sagrado, onde como Moisés há que descalçar as sandálias porque Deus fala nela e para ela como um fogo que a envolve sem a consumir.

Terra onde é preciso morrer para que posso nascer, crescer e dar fruto a semente que nela é lançada. A semente que foi a vida de Domingos foi uma semente lançada à terra, terra estrangeira, não ficou no aconchego da sua terra natal, terra que foi todo o mundo e não nenhum lugar em concreto. Como sugere o texto de Diogneto, também para Domingos toda a terra foi para ele pátria e, ao mesmo tempo nenhuma o foi porque a sua Pátria foi sempre o Reino.

Terra que se afirma pela busca do escondimento atrás do fruto que a sua família haveria de produzir no mundo, sabendo em feliz disposição de espírito que um é o que semeia, mas será outro que colhe do fruto semeado.

Terra que foi o solo sagrado onde reclinava a cabeça em longas noites de oração. Era, de fato o chão templo o lugar do seu repouso, não se lhe reconhecendo nas casas outro lugar de repouso onde o sacerdote em continuidade intercedia pelo seu povo, com gemidos inefáveis do afeto que o Espírito de Deus nele agitavam.

Terra que era de Deus e não sua, que só se pode tocar mas não possuir, não tendo nenhuma possessão que não a que a pobreza lhe oferecia de ter tudo sem ter nada.

Foi este o seu testamento: amar este mundo amado de Deus, com os pés na terra e o olhar no Salvador e no Salvador de braços abertos sobre a Cruz para o imitar nessa capacidade de amar e, como Ele amar até ao fim: os seus filhos e filhas e toda a humanidade particularmente aquela que o grito da sua oração apresentava: “Que será dos pecadores?”

O seu testamento propõe-nos uma caridade sem limites, que se manifestam na humildade e na pobreza na qual tudo se perde e na qual tudo se ganha.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


À MESA COM DOMINGOS: À mesa com os Anjos

10ª Conferência: À mesa com os Anjos

“Além disso não deve passar-se em silêncio que quando os frades viviam em S. Sixto de Roma, e sofriam com frequência de grande pobreza no necessário, porque as pessoas ainda não conheciam a Ordem, sucedeu que em certo dia que o procurador dos frades, frei Santiago de Melle, romano, não tinha pão para dar aos irmãos. Foram, pois, enviados alguns irmãos a pedir esmola e bateram a muitas portas (…) de aqui resultou que só conseguiram um pouco de pão, muito pouco mesmo. Chegava a hora da refeição e o procurador dirigiu-se ao Servo de Deus, Domingos, que ali se encontrava para lhe expor esta aflição. Ele, porém, alegrou-se interiormente e, com semblante alegre, bendisse a Deus, como que animado por uma confiança que lhe vinha do alto. Conformando-se com aquele pouco mandou ao que tinha o pão que o partisse e distribuísse pela mesa. Viviam então naquele convento cerca de quarenta frades. Dado o sinal, foram os irmãos para o refeitório e cantaram a bênção da mesa com voz alegre. Depois de ter sido dada a ordem de se sentarem tomou cada um o bocadito de pão que cada um tinha diante de si e repartiram-no com alegria. Mas eis que dois jovens vestidos da mesma maneira e de aparência igual entraram no refeitório trazendo as pregas da capa, que lhes pendia do ombro, cheias de pães, com a qualidade com os tinha amassado o padeiro que os enviava. Ofereceram-nos em silêncio, começando pela cabeceira da mesa onde estava sentado o homem de Deus, Domingos. Este estendeu a mão para os frades que estavam à sua volta dizendo-lhes: “agora irmãos, comei”. Nada duvidou que isto foi intervenção divina, pelos méritos do servo de Deus Domingos, como o testemunham os frades que sobrevivem de entre os que então estavam presentes”.

É com estas palavras que Constantino de Orvieto descreve uma passagem da vida de S. Domingos que ficou conhecida como a refeição dos Anjos. Um autor dominicano dos nossos tempos fala assim do milagre:

“Un dia em que faltó el pan, em el convento de San Sixto

Tu pediste fray Domingo que hubiera pán para tus hijos

Y de pronto el refectorio fué testigo de um milagro

Tus frailes viéron dos angeles

Sirviendo el pán que pediste

El amor se hizo pán, el amor se hizo vino

El amor se hizo fuego, el amor se hizo amigo

El amor fue um milagro em tu mesa

Fray Domingo

Visitaron los Angeles, a tus frailes em San Sixto”.

É curioso que na pintura da Mascarella na mesa só descobrimos pão como neste sinal de que se nos fala, parece que representa esta passagem, mas sem a existência de Anjos.

Neste texto cheio de beleza parece-me que o extraordinário, aquilo que projeta força é a alegria em Domingos, nos frades que cantam cheios de alegria pelos dons, ainda que escassos, pela forma como na alegria repartem o pão. As passagens das vidas dos primeiros irmãos estão cheias de jovialidade e de alegria. Eram parcos de bens, mas ricos de fraternidade.

Gostava de fazer neste encontro algumas reflexões sobre a pobreza, que não se deve confundir com miséria que nunca é fonte alegria. Como quase sempre há um pobreza que é fonte de tristeza e outra que é fonte de alegria.

Há diversos tipos de pobreza. Poderia indicar três tipos: aquela que é fruto da indigência que tanta gente é obrigada pela falta de bens necessários para viver. Tal pobreza não é boa e deve lutar-se contra ela. Depois há uma pobreza que é aquela que as condições em que nos encontramos nos impõe: aquelas coisas que posso ou não posso ter. No caso dos religiosos é mesmo acertada entre os superiores e cada irmão ou irmão, é muitas vezes positiva pois abre-nos à solidariedade limita o nosso apetite no uso das coisas.

Por fim, há um terceiro tipo de pobreza, que foi a escolhida por Jesus: aquela d quem se faz tudo para todos e se faz pobre numa capacidade de doação que implica renúncia não só a coisas materiais, mas a nós próprios numa atitude de inteira e profunda liberdade: foi esta a grande pobreza de Domingos a ser seguida por todos os seus irmãos. É esta pobreza fonte de uma serena alegria.

O texto dá-nos outros dois motivos de reflexão que gostaria de partilhar.

O primeiro seria formulado desta maneira. Tal como nos textos evangélicos conhecidos como a multiplicação dos pães o grande milagre é o da partilha os poucos pães porque partidos e repartidos chegam a todos e saciam. A partilha e o amor fraterno são o verdadeiro milagre que pode saciar, quando da parte de cada um, de cada uma se oferece com sinceridade e disponibilidade o que se tem, então esse escasso dom alcança uma multidão. Preocupa-me a incapacidade de dar o que temos e o que somos, avaramente guardamos os nosso dons. O grão de trigo que é cada um de nós quando morre dá fruto.

As duas pequenas moedas da viúva pobre tornam-se uma riqueza imensa, um património incomensurável. A pequeno pedaço de pão repartido alegrava o rosto dos frades de S. Sixto.

Mas há ainda uma outra experiência que indicia esta experiência da mesa de S. Sixto vivida com Domingos. Aparecem dois tipos de pão, um era bem pouco abundante, o outro era abundantíssimo. O tinha um sabor normal, o outro um sabor especial, de uma massa não amassada por mão humana. Que seria esse pão, donde viria?

Os frades perceberam que esse Pão não tinha proveniência nesta terra, vinha do alto, era dado pelos méritos de S. Domingos. Qual seria esse pão? Atrevo-me a dizer que era o pão da fraternidade que à roda de Domingos somos chama dos a viver, esse pão que sacia por dentro esse Pão que restaura as forças e nos lança na obra da pregação. O pão da fraternidade comida na mesa de Domingos é o Pão que devemos buscar.

Na mesa de Domingos restauramos as forças para continuar a nossa caminhada.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


À MESA COM DOMINGOS: À mesa no locutório de São Sixto: a complementaridade

9ª Conferência: À mesa no locutório de São Sixto: a complementaridade

“Ao terminar a sua alocução disse-lhes: é bem, minhas filhas que bebamos um pouco. E chamou fr. Rogério, encarregado da adega e disse-lhe que trouxesse vinho e uma caneca. Quando o frade trouxe o que lhe tinha sido encomendado por S. Domingos, mandou-lhe que trouxessem a caneca e encheu-a até à borda. Depois abençoou-a e bebeu ele em primeiro lugar e depois beberam os frades presentes. Os frades que ali se tinham congregado eram uns vinte e cinco, entre clérigos e leigos. Todos beberam o que quiseram, mas a caneca continuou cheia. Depois, quando todos os frades já tinham bebido disse S. Domingos: Quero que as minhas filhas bebam também. Chamou, então a Irmã Núbia e disse-lhe: aproxima-te da roda e dá de beber a todas as irmãs. Ela e uma companheira tomaram a caneca cheia até à borda. E apesar de estar tão cheia não se derramou nem uma só gota. Beberam, pois as Irmãs o que quiseram, começando pela prioresa. O santo Pai dizia de vez em quando: bebei bastante minha filhas. As irmã naquele tempo eram cento e quatro. Todas beberam o vinho que quiseram e este nem nada diminuiu”.

Este relato foi transmitido por uma monja a Beata Cecília Romana. O Papa numa das suas estâncias em Roma tinha pedido a S. Domingos a reforma de algumas comunidades femininas romanas. A Beata Cecília pertencia a uma dessas comunidades chamada Santa Maria in Tempulo. A comunidade trasladou-se a S. Sixto com o célebre ícone conhecido com o nome de Madonna de S. Sixto. A Beata Cecília fez profissão nas mãos de S. Domingos a 28 de Fevereiro de 1221.

É esta a autora do texto que acima transcrevemos. Quase diria que no texto o extraordinário é secundário. A base do texto e o mais importante a sublinhar é um convívio salutar entre irmãos e irmãs que simplesmente partilha uma caneca de vinho. Nada mais humano e nada mais belo. Há uma relação humana de homens e mulheres que, infelizmente, em épocas posteriores pareceu viver- se com desconfiança e reserva. Deste encontro ressalto a proximidade a confiança e o afeto que ligava Domingos às suas irmãs. Há uma informalidade fraterna que nos faz perceber a grandeza o projeto de Domingos que engloba no seu projeto a complementaridade de homem e mulher e hoje devemos ir mais além leigos e jovens.

Gostava de traçar agora alguns traços desta complementaridade, um valor que em cada momento devemos descobrir e valorizar.

Simon Tugwell que já citámos noutro momento diz três muito interessantes acerca da relação dos frades com as monjas que gostava de ressaltar porque induzem a perceber o sentido do espírito de família dominicana.

A primeira realização dominicana foi a comunidade de Prouilhe. O núcleo duro foi uma comunidade feminina de mulheres provenientes da heresia que, abandonadas e repudiadas pela sua família, encontram nesta comunidade canonicamente instituída uma estabilidade um quadro de vida que as protege. Mas é também local de apoio para os pregadores itinerantes. Aí eles têm a sua casa com a estabilidade até de oração que nos seus trabalhos não podem ter. Como em muitas casas de família, o elemento feminino oferece apoio um quadro de estabilidade de vida que o pregador necessita. Numa imagem neste lugar a comunidade feminina oferece uma ambiente espiritual de que o pregador tem necessidade. Estou certo que as monjas na Ordem ao longo dos tempos continuam a ser oásis de escuta da Palavra e respiração espiritual tão necessários à pregação.

Depois há um segundo momento de relação extremamente rico. Lembramos as Cartas de Beato Jordão à Beata Diana. Textos de grande beleza profundidade espiritual. A relação epistolar revela uma partilha do exercício da pregação. Mesma retiradas na sua clausura as monjas acompanham o percurso apostólico dos frades; sobre isso se dialoga se aconselha se pergunta. Há uma certa maneira de ser companheiros no trabalho da pregação através de uma certa partilha de preocupações, de anelos, de projetos.

Um terceiro momento extremamente rico é o papel das monjas no desenvolvimento da reflexão e da teologia espiritual. Estou a falar da doutrina espiritual do tempo de Mestre Eckart, no dealbar do século XIV. O desenvolvimento da doutrina espiritual, o aprofundamento da teologia espiritual deveu-se ao repto lançado pela proximidade com as comunidades femininas da Renânia.

Parecendo que a Idade Média é um tempo de obscurantismo esta relação de complementaridade tem muito que oferecer como desafio hoje.  A Igreja hoje tende a desenvolver uma dimensão clerical que nesta última década se tornou preocupante.

Na minha vida pessoal cresci muito como homem e como pregador quando me sentei com irmãs, com leigos e com jovens com quem refleti e decidi os caminhos da pregação. Em família dominicana não é o sr. Padre que deve dizer como se faz ele é um dos sentados à mesma mesa com a sua opinião, mas a obra da pregação é de todos. Programar, corrigir-nos mutuamente na avaliação do percurso é um bem imenso e só seremos família se soubermos fazer crescer projetos comuns que envolvam todos os ramos da nossa família espiritual.

Esta diferença é extremamente rica, mas é bom manter o que cada um é na sua especificidade dentro da Ordem. No trabalho que tive de realizar sempre me custou ver o frade que se comporta como um leigo e um leigo que se comporta como um frade. Falso sentido de adaptação levam à pobreza da complementaridade.

Vi nalguns lugares o perigo da “fradização” dos leigos, levados a comportar-se na oração como se de religiosos se tratassem e vejo a laicização de religiosos pondo gravemente em causa o teor e o equilíbrio entre os elementos da nossa vida. O frade deve ser frade, a monja deve ser monja, a irmã deve ser irmã e o jovem deve ser jovem nunca confundindo o papel que cabe a cada um de nós na construção de uma só família.

Na complementaridade há aspetos comuns e essenciais: o teor contemplativo da nossa vida, com ritmos e colorações diversas; o zelo apostólico com realizações comuns, mas com campos e abrangências diversas, a preocupação do diálogo, a busca sincera da verdade. Estes elementos são únicos, mas têm concretizações diversas e no respeito pelas legitimas autonomias.

Uma das minhas grandes preocupações com os leigos foi ajudá-los a construir a sua autonomia dentro dos limites da comunhão com a estrutura da Ordem e posso garantir que não é uma tarefa nada fácil, até porque nós frades temos algum desejo de intromissão, nem sempre respeitadora da autonomia laical.

Devo, no entanto, entanto dizer que nisto o espaço dominicano português, como já tive oportunidade de referir é dos lugares onde melhor se vive a comunhão em família dominicana.

São muitos os espaços na Ordem onde se fazem coisas extremamente belas: o diálogo entre espaços educativos na França AEDOM e na Espanha em que as instituições de ensino se organizam em fundação. A articulação entre frades e leigos em meio universitário no México, as missões em terreno difícil na Colômbia, um hospital gerido rotativamente por diversas congregações.

A minha experiência como dominicano é a perceção que o nosso carisma não é pertença de nenhum ramo da Família Dominicana, cada um de nós vive uma dimensão do carisma, mas ele é um dom a Igreja para ser vivido de formas muito diferentes.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, Op


ÀMESA COM DOMINGOS: À mesa entre os irmãos: os Capítulos Gerais

8ª Conferência: À mesa entre os irmãos: os Capítulos Gerais

“Disse também que por aquele tempo em que se celebrou o primeiro capítulo dos frades Pregadores em Bolonha, frei Domingos disse aos frades: sou um homem inútil e desprezível e, por isso, digno de ser deposto. E humilhou-se muito em tudo. Como os frades não o quiseram depor, pareceu bem a fr. Domingos que nomeassem definidores que tivessem poder tanto sobre ele como sobre os outros e sobre o capítulo, para determinar definir e mandar enquanto durasse o capítulo”.

Este texto é o testemunho de fr. Rodolfo no processo de Bolonha para a canonização de S. Domingos reporta-se aos fatos acontecidos no 1º Capítulo Geral, que se realizou em Bolonha no Pentecostes de 1220.

Confesso que, ao preparar este texto o retomar desta fonte me emocionou profundamente. A questão não é tanto a sua humildade, verdadeira contagiante, como sobretudo a sua lucidez, o sentido de governo que vai muito além dos mais modernos conceitos de democracia. A instituição dos definidores, figura que subsiste nos nossos capítulos gerais e provinciais, é de uma abertura, rasga as visão sobre o modo de construir um projeto comum.

Num dos exames pedidos pelas LCO não me lembro se para a 1ª Profissão, se para a profissão solene, um dos examinadores colocou-me uma inusitada pergunta que pôs em confusão. Perguntava quais tinham sido os dois “échecs” de Domingos. Depois percebi o primeiro era aquele que o texto acima refere. Domingos pediu para ser relevado da sua missão, além da humildade queria realizar o seu grande desejo de ir evangelizar os cumanos. O segundo foi ter visto recusada pelo capítulo a ideia que tinha de entregar a administração das casas aos irmão cooperadores. Parece ser que os frades tinham conhecimento do desaire acontecido numa Ordem chamada de Grandmont onde os irmãos leigos a quem tinha sido confiada a administração dos mosteiros, tinham tratado muito mal os clérigos.

S. Domingos aceitou e acatou as decisões dos irmãos mesmo, porventura, aquelas que não seriam as suas como acabamos de indicar. Na melhor tradição da Ordem a voz importante é a do capítulo e não a pessoa do superior. Chamamos capítulo à reunião dos irmãos que se juntam para deliberar e este capítulo pode ser geral, provincial ou conventual. Na redação das nossas leis existem estes três níveis, o Mestre da Ordem, os priores provinciais e locais de alguma maneira obedecem às determinações do capítulo. A Ordem e a vida das comunidades não são uma “quinta” de ninguém nascem de um projeto comum, o superior mais que decisor é o executor. Nesta perspetiva vê-se bem como a autoridade é um serviço e não um poder discricionário.

Aprendi muito com o anterior Mestre Geral na maneira de exercer a autoridade. Tinha encontros regulares com ele e nesses encontros fazia-se a avaliação da forma como, no meu caso estava a levar por diante as decisões do Capítulo Geral acerca do Laicado. É uma forma de governo não gerida pelas decisões pessoais de ninguém, antes gerida pela decisão de todos, representados no Capítulo.

É com uma certa ligeireza que falamos de democracia no governo da Ordem. Porém nem sempre percebemos o alcance dela e a primeira coisa é não deixar sem mais carta branca nas mãos de um superior, em todo o tempo este deve sujeitar-se às decisões de todos e deve dar contas do seu exercício de uma forma clara. Entre nós, de fato, é chamado a encarnar a figura do servo e não do patrão.

Como já tínhamos dito anteriormente esta visão regulou toda o governo de S. Domingos em decisões como as da escolha da Regra entre 1215 e 1216. O seu governo identifica-se com o seu desejo de ser sepultado sob os pés dos irmãos, ideia que me faz pensar tanto e tantas vezes.

Como dissemos logo no início, a pintura da Mascarella bem pode dar a ideia do que aconteceu no primeiro capítulo. No capítulo Domingos comporta-se como um irmão entre os irmãos.

Confesso que esta ideia de governo que liga palavras como consenso, decisão comum, perceção de uma nova forma de liderança nem sempre me foi fácil fazer compreender pelo laicado dominicano que pelo seu estilo de vida laical têm que conviver com outros tipos de governo e de liderança, mas creio bem que mesmo na Igreja e este modo de ver as coisas soa a raridade.

Uma das notas que este quadro oferece é a dimensão de fraternidade, o cargo não dá poleiro, desculpem a expressão. Aqui nada distingue Domingos a não ser a auréola que nimba o seu vulto indicadora da única autoridade a afirmar em fraternidade que é a da santidade.

Uma das consequências deste modo tão inovador de ver as coisas: a rotatividade nos serviços. Um dia é-se o prior (primeiro) no serviço e no outro é-se um irmão entre os irmãos. A rotatividade é uma bênção na estrutura da Ordem, faz perceber que a Ordem é algo que pertence a todos, onde todos, quando toca têm de assumir as responsabilidades, e depois deixa com lúcida e fraterna alegria que outros assumam o a sua parte.

Um dia o fr. Bruno contava que em determinada Província certo religioso quando falava do Provincial dizia sempre o Provincial deles (pelos vistos não era o seu candidato. A atitude dominicana diante da ação governativa é totalmente diferente: quando se toma uma decisão em comum essa passa a minha decisão. Não é a decisão deles ou delas, é a decisão da comunidade. Às vezes percebo aqui ou além uma falta de solidariedade institucional, parece que a decisão de todas não é assumida por cada um. A forma de governo dominicana exige uma grande maturidade humana. Recordo uma leiga dominicana italiana que quando lhe falava destas coisas comentava:” para isso é preciso muita maturidade”, maturidade e forma de governo que é transversal a todos os ramos da Família Dominicana.

Das experiências mais belas que pude fazer foi caminhar com IDYM para os fazer compreender como se vive a liderança na vida dominicana onde o mais importante será sempre ser irmão entre os irmãos segundo aquilo que vemos na representação da Mascarella.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


À MESA COM DOMINGOS: À mesa da Eucaristia

7ª Conferência: À mesa da Eucaristia

“Disse também que quando o ajudava na celebração da Missa se fixava no seu rosto e via correr as lágrimas pela cara com tanta abundância que uma não dava espera à outra”.

É este o testemunho de Fr. Bonviso de Piacenza, companheiro de S. Domingos em diversas viagens. Este testemunho faz parte das atas dos testemunhos recolhidos em Bolonha para a canonização de S. Domingos. Outros testemunhos confirmam que S. Domingos celebrava todos dias, o que não era comum naqueles tempos, e sempre com grande efusão de lágrimas.

Já vi muita gente celebrar com mais atenção ou menos atenção, com maior gosto estético ou menos atenção à beleza dos gestos, com cuidado pelo cumprimento das rúbricas ou esquecendo-as, com grande escrúpulo ou com expressões de comoção, mas apenas uma vez vi alguém celebrar com esta intensidade que vemos refletida na forma de celebrar de S. Domingos. A pessoa que vi assim celebrar foi o Dom Hélder Câmara uma vez que tive oportunidade de estar mais perto dele. Recordo como me marcou essa celebração e não podemos dizer que este homem tinha uma piedade intimista.

A expressão do nosso Pai ao celebrar a Eucaristia faz-me compreender como a mesma era fundamental no exercício da missão de anúncio à qual S. Domingos se sentiu chamado.

Na minha Lectio Divina tomo muitas vezes reflexões de pastores de igrejas reformadas. As igrejas reformadas, ditas protestantes têm muitas vezes uma aproximação à Escritura muito profunda cheia de conhecimento, mas também de beleza, mas falta-lhes algo: a força do sacramento.

O nosso Bispo D. António Marto definiu a momento como momento de emergência eucarística. O ano passado e o corrente levou muita gente, em momento de alívio a não voltar à celebração eucarística. Justificadamente temos um certo receio que uma situação de exceção se torne situação de continuidade. O problema não está tanto em cumprimento do preceito, mas no perceber a essencialidade da Eucaristia no contexto da vida cristã.

A visão que as gerações anteriores passaram da Eucaristia foi a de uma terrível obrigação que ensombrava as manhãs de Domingo. Timothy Radcliffe no seu livro sobre a Eucaristia, curiosamente escrito a pedido do Arcebispo Primaz da igreja anglicana, para ser proposta de leitura para os seus pastores durante uma Quaresma, começa por contar a história, reinventada pelo autor a partir de uma outra passada num contexto diferente, de um homem dorminhoco que tardava em levantar-se apesar da própria mãe o instar para tal. Depois de tentativas infrutíferas, a mãe deu-lhe três argumentos fundamentais: a Missa é importante, esse dia era Domingo e ele era o Bispo da diocese e deveria presidir à mesma.

Diante de Deus e de nós mesmos interroguemo-nos sobre o lugar da Eucaristia na nossa vida e missão.

Neste momento eu próprio na estrutura da CIRP diocesana estou a preparar um projeto de trabalho para que os institutos de vida consagrada possam refletir e partilhar com a igreja diocesana o sentido da Eucaristia na vocação, vida e missão na sua família espiritual. Este desafio deixo-o a cada um neste dia de retiro.

Deixo da minha parte alguns elementos que parecem importantes para esta reflexão. Com o Concílio afirmamos que a Eucaristia é o ponto de partida e de chegada de toda a nossa atividade apostólica. Na sua carta pastoral D. António Marto escreve que a Eucaristia é como uma abóbada da reflexão pastoral.

O primeiro elemento é perceber o mistério da presença única de Jesus no mistério eucarística, presença real, mas presença próxima tão frágil como a da matéria do Pão. Uma experiência incarnatória que nos espanta e encanta pela sua proximidade, simplicidade e ao mesmo tempo grandeza. O tudo da ação de Cristo está no sacramento da Eucaristia: a sua paixão, o dom de si mesmo até ao fim e ao mesmo tempo a presença de ressuscitado como casa dos discípulos de Emaús. De fato a grandeza e a simplicidade caminham juntas, de forma tão próxima e complementar, o sublime e o quotidiano unem-se intimamente, o espaço e a eternidade cunham a mesma moeda.

Compreendo Tomás que diante do mistério contemplado na Eucaristia já nada tem valor:

Eu vos adoro devotamente, ó Divindade escondida,

Que verdadeiramente oculta-se sob estas aparências:

A Vós, meu coração submete-se todo por inteiro,

Porque, vos contemplando, tudo desfalece.

A vista, o tato, o gosto falham com relação a Vós,

Mas, somente em vos ouvir em tudo creio.

Creio em tudo aquilo que disse o Filho de Deus:

Nada mais verdadeiro que esta Palavra de Verdade.

Na cruz, estava oculta somente a vossa Divindade,

Mas aqui, oculta-se também a vossa Humanidade;

Eu, contudo, crendo e professando ambas,

Peço aquilo que pediu o ladrão arrependido.

Não vejo, como Tomé, as vossas chagas;

Entretanto, vos confesso meu Senhor e meu Deus.

Faça que eu sempre creia mais em Vós,

Em vós esperar e vos amar.

Ó memorial da morte do Senhor!

Pão vivo que dá vida aos homens!

Faça que minha alma viva de Vós

E que à ela seja sempre doce este saber.

Senhor Jesus, bondoso pelicano,

Lava-me, eu que sou imundo, em teu sangue.

Pois que uma única gota faz salvar

Todo o mundo e apagar todo pecado.

Ó Jesus, que velado agora vejo,

Peço que se realize aquilo que tanto desejo;

Que eu veja claramente vossa face revelada

Que eu seja feliz contemplando a vossa glória.

Entre as expressões que o texto utiliza, há uma que me chama a atenção de modo muito particular: bondoso pelicano. Sabemos que o pensamento antigo pensava que o pelicano alimentava as suas crias com o seu próprio sangue. Hoje percebe-se que não é assim. Mas sim somos alimentados pelo próprio corpo do Senhor entregue por nós e com o seu sangue derramado por nós. A Ordem, particularmente com S. Tomás deu uma grande ajuda a perceber a realidade do que acontece no altar. É tão profunda tão sublime esta realidade que nos deixa maravilhados. Ontem como hoje vale a pena na Eucaristia e na adoração silenciosa fitar a hóstia consagrada e perceber tudo o que de dom de amor nela se contém.

Temos que às vezes se celebre e se viva a Eucaristia tirando-lhe a sua transcendência. É um empobrecimento terrível.

Nas Igrejas orientais o canto do “trisaguión” que, como sabemos tem a sua raiz na texto de Isaías em que descreve a sua vocação, é entendido como um canto em que a majestade de Deus abraça todo a celebração do mistério eucarístico.

Porém a eucaristia para além de ser contemplada, configura-nos com Cristo e, a partir do Pão que recebemos tornamo-nos, nós próprios pão para os demais. S. Inácio de Antioquia num texto que, certamente conhecemos bem, percebe o seu martírio em chave eucarística: o seu martírio, moído pelas dentes das feras, será ser ele próprio, pão eucarístico.

Já tinha preparado esta conferencia chegou-me um vídeo que continha uma canção que se desenvolvia ao longo do tema: “diz-me como ser pão?”

A nossa vocação é fazer da Palavra pão para muitos, mas tal nunca poderá conseguir-se desvinculados da Eucaristia. Ser pão no conteúdo do que transmitimos e na forma como o transmitimos tem que ter a marca eucarística.

Na Eucaristia reconhecemos a grandeza do dom e a urgência de o oferecermos na gratuidade, pois na gratuidade o recebemos.

Por tudo isto, e se atentarmos na profundidade de tudo isto percebemos quanto a Eucaristia é central para nós, provocando com justeza lágrimas de gratidão por tão grande dom, as lágrimas que Domingos derramava abundantemente quando celebrava a Eucaristia.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


À MESA COM DOMINGOS: À mesa em Igreja as suas idas a Roma

6ª Conferência: À mesa em Igreja as suas idas a Roma

“Frei Domingos acompanhou o Bispo Fulco na sua ida ao Concílio e, também, para expor ao Papa Inocêncio o desejo de ambos que confirmasse a Ordem de frei Domingos de seus companheiros que devia chamar-se de Pregadores. Suplicariam também ao Papa que lhe confirmasse as rendas, tanto as outorgadas pelo conde de Monfort, como pelo próprio bispo. O Romano Pontífice escutou a súplica que lhe fizeram e animou frei Domingos a voltar para junto dos seus frades para ter com eles uma deliberação. Deviam escolher alguma das regras já aprovadas, o bispo devia assignar-lhes uma igreja e, cumpridos estes requisitos deveria voltar ao Papa para receber a confirmação da Ordem”.

Esta passagem colhida no texto do Beato Jordão de Saxónia sobre as Origens da Ordem dos Pregadores faz dar um pulo no tempo. O encontro com o estalajadeiro em Toulouse, de que falámos no último encontro deve situar-se em 1203, no Outono. Este encontro com o Papa Inocêncio III deve situar-se em Outubro de 1215. Quantas experiências de pregação já tinham sido experimentadas por Domingos: a pregação no meio dos cátaros, a estadia em Fanjeaux, a fundação de Prouilhe, a casa de Pierre Seila em Toulouse…

Mas Domingos sente necessidade de ir a Roma suplicar ao Papa a aprovação da Ordem. Após este encontra volta a Toulouse e escolhe com os seus frades a Regra de Santo Agostinho.

Volta a Romano ano seguinte, mais ou menos um ano depois no fim do Outono, início do Inverno de 1216. Já era um novo Papa que então ocupava a cátedra de Pedro, o Papa Honório III, que acolheu o projeto e confirmou as rendas outorgadas, como base para o apoio da obra da pregação.

Neste período S. Domingos obtém do Papa duas Bulas aquela datada 16 de Dezembro de 1216 e uma outra data de 21 de Janeiro de 1217, que protegem assistem a Ordem com aquilo que era tido como necessário para a vida e sustento dos frades no trabalho da pregação.

Quem ler a primeira Bula não lhe achará grande interesse, pois quase só refere os bens materiais, confirmando-os a favor da Ordem O segundo texto é muito mais belo, porquanto exorta os frades a que mantenham a viver o seu carisma próprio: “como servos fiéis empreguem os talentos que lhes foram confiados para os entregar ao Senhor duplicados, como invictos atletas de Cristo”.

Nesta reflexão gostaria de falar de uma outra mesa da qual nos devemos aproximar que é a Igreja. A missa de S. Domingos tem como antífona de entrada um texto tirado do livro do Bem-Sirac 15, 5 assim traduzido: No seio da Igreja (no texto comunidade) o Senhor deu-lhe a palavra e revestiu-o de espírito de sabedoria e de inteligência”. Frequentemente invocamos S. Domingos como “Luz da Igreja”.

Domingos foi um homem de Igreja, não fez um grupo à parte. Às vezes oiço falar por parte de alguns de Igreja identificando- a com os seus objetivos de grupo. S. Domingos foi um servidor da comunhão da Igreja, a sua pregação aos hereges era um esforço para trazer as pessoas à comunhão com a Igreja.

Há alguns aspetos da relação com a Igreja que gostaria de sublinhar nesta reflexão.

O primeiro aspeto que gostaria de sublinhar é o sentido de Igreja deveremos viver. Uma comunidade dominicana não pode viver à margem da Igreja em primeiro lugar na sua dimensão local. A vida das comunidades dominicanas no nosso país, tanto nos leigos como nos religiosos e religiosas é felizmente um sinal muito positivo desta identificação das igrejas locais. Geralmente são muito disponíveis e muito empenhados na dinamização das suas comunidades paroquiais e diocesanas e isto é muito belo. Nunca uma comunidade dominicana pode ser uma “capelinha” no local onde se encontra.

Desde o início da vida da Ordem que as nossas capelas e igrejas estiveram abertas, para que as pessoas nelas pudessem celebrar a fé. O Papas concederam que as se celebrasse a fé mesmo quando numa determinada cidade estava fustigada pelo interditos, muito comuns na Idade Média. Isto é importante porque locais onde podemos exercer a pregação e o acolhimento. Porém, não são locais à margem da Igreja diocesana celebrando a sua fé totalmente alheios aos projetos e dinamizações propostas pela comunidade diocesana. São dimensões que todos conhecemos e que não podemos esquecer.

A outra dimensão de Igreja é a fidelidade ao seu ensino. De certo uma fidelidade criativa e tantas vezes sofrida. Quantos dos nossos irmãos sofreram pela sua fidelidade criativa à Igreja. Uma vez muito jovem fiquei chocado com um irmão que me interrogava sobre um problema de teologia moral ao qual dei uma resposta que me pareceu sensata, mas com referência ao ensino da Igreja ao que ele me replicou: “isso é teologia romana”. Hoje isto faz-me sorrir, certamente este irmão nunca percebeu o que quer dizer magistério e, apesar de dominicano, nunca leu o P. Congar. Fidelidade na doutrina, fidelidade às normas litúrgicas, perceção do que diz a Igreja sobre os diversas matérias.

Estamos perante uma fase de contestação, sempre estamos. Uma vezes de teor mais progressistas outras de teor mais conservador, que agora parecem tomar particular força, mesmo em muitos clérigos e movimentos, esta contestação quando provoca divisão deve ser cuidadosamente evitada. Somos sinais de comunhão na Igreja essa é uma dimensão fundamental da nossa vocação.

Mas há outras duas dimensões ainda que gostaria de sublinhar e que nem sempre são fáceis de gerir.

Em 1994 já lá vão uns anos a CIVSVA escreveu um documento que é importante reler de vez em quando. Tem por título a “Vida fraterna em comunidade”. Apesar de já ter alguns anos, este texto revela ter a sua atualidade. Coloca-nos a questão do equilíbrio entre a nossa vida comunitária e a presença a grupos eclesiais e a paróquias.

Na nossa Província houve, em certos momentos, uma certa rejeição do serviço paroquial como espaço de serviço dos dominicanos. Não vou tomar, nem me compete tomar posição aqui. O que é preciso perceber é que onde quer que estejamos, quaisquer que forem os nossos apostolados há um valor fundamental a preservar que é o equilíbrio dos valores fundamentais que constituem a nossa vida.

Prima entre todos eles a nossa vida em comunidade. Mas são igualmente valores a desenvolver: a celebração fiel da nossa oração comunitária, o tempo para os estudo e a reflexão pessoal e comunitário, os tempos de silêncio e de recreio. A falta de fidelidade a estes elementos da nossa vida, ainda que por envolvimento em atividades apostólicas não é sinal de fidelidade à Igreja que reconhece em nós uma vocação específica que enriquece todo o tecido da Igreja. Somos fiéis à Igreja na medida em que formos fiéis ao nosso carisma específico. As experiências apostólicas que induzem ao individualismo e ao relaxamento dos valores da vida religiosa tendem desnaturar a nossa vocação. Muitos de nós já terão feito esta experiência que tem aspetos muito negativos.

A outra dimensão que gostava de sublinhar é uma que era muito caro ao anterior Mestre da Ordem: sermos sinal de igreja para a igreja. Bruno Cadoré teve na sua juventude uma forte experiência eclesial no Haiti, conheceu vibrantes expressões eclesiais e isso marcou o seu pensamento.

A família dominicana contém uma grande diversidade de dons carismas: clérigos e leigos, religiosas contemplativas e religiosas de vida apostólica, institutos seculares e jovens. Esta diversidade congrega os mais importantes carismas da Igreja Universal. Viver em fraternidade e em complementaridade estes diversos carismas é um desafio muito belo que na Ordem, como num pequeno laboratório se pode experimentar de forma tão harmoniosa.

Se há coisa que no espaço da Província Dominicana Portuguesa funciona bem é esta interligação dos ramos. É um assunto a que voltarei.

Agora gostaria apenas de sublinhar que esta forma de viver é particularmente apelativa, numa época em que, mesmo na Ordem, se vai desenvolvendo o modelo de uma Igreja muito clerical, em muitos aspetos pré conciliar no que à eclesiologia diz respeito, apesar dos constantes apelos do Papa Francisco. Não ministérios superiores nem inferiores, há uma igreja que deve continuar a ser como aquela a que alude Paulo na 1ª Cor, onde há uma riqueza de carismas, que se vivem na força da comunhão que a caridade deve gerar.

Estas reflexões que parecem apenas referidas aos tempos de hoje têm a sua raiz histórica na própria comunidade originária e Prouilhe onde consagradas clérigos e leigos se juntaram para afirmar a obra da Pregação.

Os tempos atuais reclamam como naquele tempo novos modelos eclesiais mais próximos da comunidade primitiva de Jerusalém que S. Domingos toma como modelo para se lançar no anúncio da Palavra.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP