Ainda faz sentido acreditar em Deus

Por Fr. António Jorge OP

Para muitas pessoas não faz sentido colocar a questão de acreditar em Deus porque acham que Ele pura e simplesmente não existe ou, então, não é uma questão prioritária. Outras, embora acreditem em Deus, acham que Ele está tão distante que não poderá interferir nas suas vidas e, por conseguinte, também não adianta perder tempo com Ele.

Creio ser importante referir, de forma telegráfica, alguns momentos da nossa história ocidental. No Império Romano os cristãos eram vistos, pelos romanos, como pessoas sem religião (ateus) porque não adoravam os deuses do panteão romano e outras divindades romanas. Só tinham um Deus, como os judeus, mas perante estes também não se sujeitavam às práticas judaicas contidas no livro da Lei. Seguiam o Senhor, ou seja, Jesus Cristo, procurando imitá-lo no seu estilo de vida: observando os seus ensinamentos, ajudando-se mutuamente e reuniam-se para orar, sobretudo para celebrar a Ceia do Senhor no primeiro dia da semana, que passou a chamar-se Domingo (dia do Senhor).

No período do iluminismo, os deístas e os teístas negaram a Revelação, ou seja, que Jesus Cristo seja Deus. Continuaram a acreditar em Deus, mas num Deus muito distante de nós. Deus passou a ser visto como um relojoeiro que depois de colocar o relógio em movimento não interfere nele. Deste modo, acabaram por se afastar do cristianismo, negando aquilo que carateriza o cristianismo em relação às outras religiões: Deus assumiu a nossa condição humana.[1]

No século XIX Ludwig Feuerbach, ao rejeitar o deísmo e o teísmo, deu origem ao ateísmo (negação de Deus) por achar que a crença em Deus era uma forma de alienação do ser humano que projetava os seu desejos num suposto ser superior, em vez de fazer pela vida. Seguiram-se-lhe os chamados filósofos da suspeita: Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud que desenvolveram essa teoria, que teve os seus aspetos positivos, mas que não eremos abordar agora.

Perante o atual cenário de pandemia algumas pessoas questionam-se: se Deus é bom e omnipotente porque permite que isto aconteça? Se Ele é omnipotente, ou seja, que tem um poder infinito, então porque não faz algo para todo este mal não nos atinja? Se não o faz é porque não é omnipotente ou, então, não é bom!

São questões complexas e sensíveis que exigem ser tratadas com muito cuidado para não aumentar ainda mais o sofrimento de quem as coloca ou de quem passa por situações de muito sofrimento. São questões que exigem uma cuidadosa reflexão e análise dos conceitos que usamos. Que poder infinito é esse? O que entendemos por poder de Deus? Há um pequeno e precioso livro do Padre Vasco Pinto Magalhães (Se Deus é bom porque sofremos?) que aborda esta temática com mestria.[2] Poderá ser uma boa leitura para o tempo de férias.

Outras pessoas acham que tudo isto é castigo de Deus por causa do mal que praticámos não só contra a natureza, mas também no que se refere a todo o tipo de mal moral. É uma conceção de um deus castigador que nada tem a ver com o Deus que Jesus Cristo nos dá a conhecer.[3]

O Deus que Jesus Cristo nos dá a conhecer apresenta-se-nos como nosso aliado, querendo o nosso bem. Está do nosso lado e não do lado do vírus e da pandemia,[4] porque com a ressurreição de Jesus Cristo abriu-nos um caminho de salvação e de libertação.[5]

Deus que é amor respeita a nossa liberdade: propõe, não impõe. Mas também não deixa de convidar-nos para o bem e ajudar-nos a pratica-lo. Nunca nos abandona. Nós podemos desistir d’Ele, mas Ele nunca desiste de nós.[6] Desde o momento em que Ele encarnou, na Pessoa do Seu Filho, uniu-se, de certa forma, a toda a humanidade.[7] Está presente, embora não totalmente, no mais íntimo de cada um de nós e aí cada pessoa pode acolhê-lo ainda mais na medida em que procura o que é bom, belo, justo, verdadeiro e sublime. Também vem ao nosso encontro de muitas formas, sobretudo através das pessoas que coloca nosso caminho e nos ajudam a caminhar no bem e a viver os valores do verdadeiro humanismo, mesmo que essas pessoas não creio n’Ele ou sejam de outras religiões e de outras culturas muito diferentes da nossa. “Onde há caridade e amor aí habita Deus”.[8]


[1] Cf. Papa BENTO XVI, Como falar de Deus?

http://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2012/documents/hf_ben-xvi_aud_20121128.html

[2] Cf. https://www.youtube.com/watch?v=ePMceKQSjDw

[3] Cf Papa BENTO XVI, Deus Caritas Est,

http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est.html, Introdução

[4] Cf. RANIERO CANTALAMESSA, Tenho um designo de paz, não de sofrimento, https://www.vaticannews.va/pt/osservatoreromano/pdfreader.html/por/2020/04/POR_2020_015_1404.pdf.html pag. 3

[5] https://www.youtube.com/watch?v=7h3lxnktXtE&feature=youtu.be

[6] https://agencia.ecclesia.pt/portal/a-vida-e-uma-solidao-com-companhia/

[7] Cf. HANS URS VON BALTHASAR, O compromisso do cristão no mundo, ed. Paulinas, pags. 89-108

[8] https://www.youtube.com/watch?v=PZV6yZIk890

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