ÀMESA COM DOMINGOS: A mesa da contemplação: a experiência de Osma

4ª Conferência: A mesa da contemplação: a experiência de Osma

Continuando a vida de Domingos, tomamos agora um texto muito interessante, desta vez de Pedro Ferrando: “Ele como lâmpada colocada sobre o candelabro ou como cidade assentada no cimo do monte (Mt 5, 15) era o deleite para os que com ele conviviam, oferecia um claro exemplo de religião. De fato, era assíduo na oração, o primeiro na caridade, inquieto pela compaixão, submetido aos súbditos pela humildade. Deus tinha-lhe concedido a graça de especial de chorar continuamente pelos pecadores e pelos desditosos e afligidos. Inflamado pelo zelo das almas que pereciam e movido pelo zelo da morada celeste, muitas vezes passava as noites em oração. Com frequência nas suas orações o gemer do coração era como um rugido (Sl 36,9). Não se podia conter, de modo que os seus gritos de dor se escutavam desde longe. Golpeava os ouvidos da divina clemência com esta especial petição a saber: que o seu coração pudera governar-se mais eficazmente por uma caridade semelhante à daquele que se entregou totalmente pela nossa salvação. Tendo lido e compreendidocom particular atençãoo livro que se intitula Conferencias dos Padres, buscou com sumo cuidado as sendas da salvação e conquistou os mais altos cumes da perfeição. Este livro trata da limpeza de coração dos vícios e da perfeição de todas as virtudes. A frequente leitura deste livro conduziu o discípulo de Cristo com a ajuda da graça a uma grande pureza de coração, às alturas da contemplação e à perfeição da doutrina espiritual”.

Temos diante nós uma descrição uma descrição bela e profunda da maneira como Domingos vivia em Osma, de onde sairá para o serviço da pregação. No texto temos uma referência a uma palavra que define o mais fundo da nossa vocação, a fonte de onde tudo brota: a contemplação.

Parece-me que a contemplação é o verdadeiro laboratório de onde brota a beleza e o empenhamento da ação apostólica.

Pode haver uma ideia errada da contemplação que a reduz a estados místicos algo raros. Conheci alguém que procurava medir a sua vida contemplativa pelos graus de perfeição tão bem descritos nas “Três idades da vida espiritual do P. Garrigou- Lagrange, um texto belíssimo que muitos de nós lemos nos tempos de formação. Pode haver uma confusão entre contemplação e experiência mística e tal é um real perigo.

A escola dominicana do século XVI de que são testemunhas maiores Fr. Luís de Granada e S. Bartolomeu dos Mártires, ou a espiritualidade francesa do século XVII na pessoa, por exemplo, de S. Francisco de Sales fazem-nos perceber que assim não é: a contemplação é o coração da vida cristã, adaptada e formas e lugares, segundo as diversas vocações cristãs.

Sou muito devedor no meu percurso espiritual a uma espiritualidade contemplativa ligada à vida. Esta espiritualidade desenvolveu-se muito em França e usa nomes como o de Madeleine Delbrel. Assistente que sou do Instituto Secular Caritas Christi sempre me confrontei como uma profunda espiritualidade vivida na total discrição, num chamamento que se traduz como uma vivida plenamente contemplativa e apostólica.

Descentrar a nossa vida do apelo da contemplação é o desviar a nossa vida e vocação do essencial. Em S. Domingos percebemos como essa vida interior alimenta o fogo imenso da caridade que ardia no seu coração e o inflamava de amor e zelo pelas almas.

A contemplação alimenta o zelo. As vezes sinto em mim e não posso deixar de o sentir à minha volta a falta desta centelha, deste fogo que ardia em Domingos, mas que não arde no nosso coração. Era na oração que se forjava o grito de Domingos: “Que será dos pecadores?”

Um irmão nosso escreveu assim de Domingos:

Era un’uomo che piangeva molto. 

Si vedeva scintillare
nelle sue lacrime un amore 
teneramente umano. 
Umano perché divino. 
E divino 
perché sgorgato dalla preghiera. 

La Parola di Dio lo bruciava, 
divorante come un fuoco 
e vasta come l’abisso. 

Non ha istituito un Ordine, 
ché lo ha piuttosto intimato: 
gli amici, loro malgrado,
finirono per unirsi con lui. 
E diede loro un Ordine da istituire. 
Messaggero dell’amore di Dio, 
portatore di sofferenza 
e di speranza immensa.
Uragano e rifugio, 
versava torrenti di pace, 
nelle strettoie
delle mezze verità ovattate,
delle convenienze mollicce 
e degli ardori spenti. 
Chi giaceva da tempo 
nelle tenebre di sempre 
vedeva 
la possibile
intrusione del giorno. 

Tale fu Domenico. 

Nessuno sfoggio di pietà bizzarra,
semplice umanità. 
Così semplice 
da non nascondere 
la rugiada della luce divina. 

Simone Tugwell op

Gosto muito deste texto que nos fala de espiritualidade. Um tema que temos muita dificuldade em afrontar. Quando falamos destas coisas pensamos logo em tempos de oração que fazemos ou que não fazemos, mas o ponto principal não é este. Em jogo não está tanto os tempos de oração em comum que fazemos ou deixamos de fazer. A contemplação é a nossa espinha dorsal. Creio que percebemos o que isto quer dizer. Pode ter outras expressões como a de configurar-nos com Cristo, deixar-se moldar por Ele. O Papa para utilizar uma linguagem percetível aos jovens, dizia no Bangladesh que Cristo deveria ser o software das nossas vidas com as contínuas atualizações dele se devem fazer. Nalguns telemóveis e nos computadores há constantes atualizações que, às vezes, nos aborrecem porque impedem o progresso do nosso trabalho. Há uns meses tive que fazer uma atualização profunda ao meu computador, no disco de armazenagem havia demasiadas coisas, estava demasiado cheio. A atualização do computador permitiu que este aligeirasse o seu funcionamento.

Pedindo desculpa pela comparação, a contemplação é o que permite agilizar a nossa vida, para que responda velozmente aos apelos de Deus. Para que a nossa vida tenha sentido é preciso algo muito forte que lhe garanta este sentido e isso é contemplação.

A contemplação acresce a capacidade de acolhimento. O Beato Jordão disse de S. Domingos que todos cabiam no seu coração. A contemplação alarga as portas do coração porque nos marca pela experiência do amor que tem a sua fonte em Deus. Também disto é particularmente importante sublinhar: a contemplação cristã torna-nos mais humanos.

Num tempo marcado pelo stress, mesmo a pandemia nos trouxe novas variantes dele, procuram-se técnicas para controlar os níveis de ansiedade: yoga, técnicas respiratórias, reiki, etc. Houve quem tentasse no campo cristãos de confundir técnicas antisstress com contemplação cristã. A contemplação cristã não nos quer colocar num estado de pleno domínio do corpo pela mente, não quer levar a nenhum tipo de insensibilidade. Em Domingos ela queima o coração, não produz nenhum êxtase ou qualquer outra experiência particular, apenas faz arder o coração de amor.

Outros santos da Ordem como Catarina de Sena ou Martinho de Lima tiveram êxtases, levitação, estigmas, bilocação. Estes sinais credibilizaram a excelência da sua caridade vivida em grau heroico, mas esses sinais não são os sinais fundamentais da contemplação dominicana, esta é antes o alimento do zelo pela pregação e salvação das almas. O nosso Pai não os teve é seguramente, para nós, o modelo do contemplativo.

Ser contemplativo significa crescer em humanidade. A forma de vermos a sua autenticidade é a sua humanidade. Apesar das suas experiências místicas, Martinho de Lima não ficou conhecido pelos fenómenos sobrenaturais, mas pelo seu amor pelos pobres, pela sua humildade e por não fazer aceção de pessoas num acolhimento que parecia uma tenda que nunca parava de crescer. Esta é a forma da contemplação de que nos torna ao mesmo tempo plenamente contemplativos e plenamente apostólicos.

Na boa tradição não se pode falar de vida contemplativa sem uma referência à vida ascética. Hoje não gostamos desta palavra nem do que ela representa. Alegando as nossas mazelas e a idade, dizemo-nos dispensados de práticas ascéticas. Temos certamente alguma razão, se considerarmos que excessivos jejuns ou longas horas de joelhos de tornam incomportáveis. Mas será isso o valor mais importante que o ideal ascético nos propõe?

No texto que líamos no início da reflexão lembrávamos que Domingos se socorria da leitura das Conferências dos Padres de Cassiano. Este foi um autor viveu nos séculos IV-V, morreu num mosteiro em Marselha, mas soube traduzir na sua obra o espírito e sentenças dos Padres do deserto. É um texto que gosto de ter à mão porque nos dá o sentido da contemplação na sua profundidade. Os Padres do deserto foram, certamente grandes ascetas, mas o seu grande legado prende-se sobretudo com a vitória sobre si mesmo, o crescimento na humildade, a prática das virtudes inerentes ao estado monástico e a obediência. É muito significativo que o pregador que foi Domingos encontrasse nestes escritos a inspiração para a sua vida, com uma sensibilidade tão forte pela salvação das almas. Então como pode a espiritualidade monástica, ser tão importante para o dominicano? Eu creio que aqui tocamos um ponto importante para a nossa reflexão: o equilíbrio entre o cuidado pelo desenvolvimento pessoal da virtude e o serviço apostólico. Somos anunciadores de uma mensagem de conversão, mas como é que vivemos essa tensão de conversão que deve marcar também a nossa caminhada.

Não temos porque buscar coisas extravagantes, mas a ascese da humildade, a ascese do silêncio, a ascese da obediência, são outros tantos caminhos que nos abrem ao amor pelo Senhor e pelos irmãos, onde não há busca de conversão pessoal não haverá senão o falso zelo pelo bem do próximo.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


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