À MESA COM DOMINGOS: A sua mesa na casa de Caleruega

2ª Conferência: A sua mesa na casa de Caleruega

Somos fruto de uma educação, de uma casa, de uma família. A fé, mas também a partilha, a sensibilidade aos problemas dos outros e dos seus sofrimentos vêm-nos do berço onde nascemos. Também isso acontece com S. Domingos tal como Rodrigo de Cerrato nos diz na vida de S. Domingos que escreveu na segunda metade século XIII. Escutemos o texto em que trata do perfil de sua mãe a Beata Joana de Aza: “A sua mãe era muito compassiva; em certa ocasião em que, por disposição de Nosso Senhor, estava ausente o venerável Féliz, pai de S. Domingos, a sua mãe, contemplando a angústia dos necessitados, e depois de dar muitas voltas ao que era seu, repartiu entre os pobres um tonel que estava cheio de vinho, que era muito célebre naquele lugar. Quando voltava, já próximo de Caleruega saíram ao encontro do seu marido vizinhos que lhe comunicaram que o vinho tinha sido distribuído pelos pobres. Quando chegou casa, diante de todos os vizinhos, disse à sua mulher que lhes mandasse servir o vinho daquela cuba. Temendo ela uma não pequena confusão, entrou na adega onde estava a mencionada cuba de ajoelhando-se, orou ao Senhor dizendo: “Senhor Jesus Cristo, ainda que não seja digna de ser escutada por causa dos meus méritos, atende-me por meu filho e teu servo a quem consagrei ao teu serviço”. A mãe estava convencida da santidade do filho. Tendo-se levantado cheia de confiança, dirigiu-se ao tonel que encontrou a transbordar de um vinho delicioso. Agradecendo ao Senhor de todos os bens, mandou-o repartir pelo seu marido e pelos demais presentes. Todos ficaram admirados”.

Sempre gostei muito deste relato. De noviço gostava de descer a este lugar onde se identificou ser a adega da casa dos pais de S. Domingos e passar ali um momento de oração. O lugar é calmo e a sua obscuridade convida ao recolhimento.

Uma primeira nota que acerca deste texto é a sua ligação com o que o precede: esta referência à vida da mãe de S. Domingos segue à referência aquilo que S. Domingos fez em Palência ao vender os seus livros, anotados por mão própria para matar a fome às vítimas da situação difícil que a cidade vivia. Por isso o texto começa: “Na verdade…”

O autor quer assim dizer que a generosidade que Domingos manifestou para com os pobres vinha-lhe da educação materna onde aprendeu um jeito de estar e de ser. Os valores aprendidos na família são um fundamento importante para uma vida consagrada. De casa Domingos trouxe o conceito de generosidade que desenvolveu com as cores do Evangelho.

Porém gostava de trazer à nossa reflexão uma outra dimensão deste milagre que sendo belo pode ficar preso ao pitoresco da situação.

Na nossa cultura popular conhecemos o milagre atribuído à Rainha Santa, quando o pão se transforma em flores num dia frio de Janeiro. Não vou fazer exegese do texto nem sequer pronunciar-me sobre a sua autenticidade, afinal sempre podemos afirmar que Santa Isabel foi uma grande mulher cheia de uma grande caridade para com os pobres e aflitos, como o tinha sido Santa isabel de Hungria sua parente, que com ela partilhou a mesma espiritualidade franciscana. Na vida destas santas faz-se referência ao pão, essencial para matar a fome.

No caso da beata Joana não é de pão que falamos, mas de vinho. Parece que o vinho não é essencial à vida como o é o pão.

Esta constatação sempre me intrigou. O próprio Domingos vendeu os seus livros para matar a fome. A água sempre abundante na fonte da estrada que conduz a Valdeande, aldeia próxima de Caleruega dá água suficiente para matar a sede.

Mas quais são as sedes do homem?

O Cardeal Tolentino há uns anos pregou à Cúria Pontifícia um retiro sobre a sede. A sede mais funda do homem é aquela a que só Cristo pode responder, aquela que nos leva a aproximar-nos de Cristo e a beber do cálice do seu sangue que para nós escorre a partir da cruz.

Há uma sede que a água não sacia se não for transformada em vinho como nas bodas de Caná.

Há sede de alegria, sede de razões de viver que só o vinho novo da graça. Estou a falar com irmãs cuja fundadora intuiu que não basta o pão para não ter fome, é preciso educar. Há muitas coisas na vida que que vão para além das necessidades fisiológicas, mas sem as quais não podemos, de fato viver. Os tempos de pandemia mostraram a muitos dos nossos idosos que apesar dos bons cuidados prestados nas instituições onde se encontravam internados a falta do abraço e da proximidade dos seus dava à vida um travo amargo. Podemos até ter tudo, mas esse tudo não é senão uma mão cheia de nada.

O milagre da adega de Caleruega como o das bodas de Caná conduz-nos a refletir sobre a essencialidade do necessário para a vida que vai bem mais além do que os umas fatias de pão ainda que do melhor trigo.

Afinal o que é essencial à vida? A mesa da casa de Féliz e Joana em Caleruega como a mesa representada na Mascarella falam-nos de essencialidades, que devemos ter em conta.

Vou falar de algumas que me parecem fundamentais:

Ter respostas para as grandes interrogações, que por vezes me queimam por dentro: donde venho? Para onde vou? Que sentido tem a minha vida?

Ser considerado como pessoa. Ultimamente tem-me acontecido ler bastante sobre o holocausto judeu; a par do sofrimento, da fome, do medo, pairava naquela gente o sofrimento de já não serem tidos como pessoas.

Descobrir caminhos de felicidade. No percurso de muita gente acumulam-se experiências de busca de felicidade onde esta não se encontra, caminhos errados que esvaziam, que encolhem a alma. Porventura interrogo-me se mostramos com a nossa vida viver um caminho de felicidade sem, porventura, esconder a dificuldade, luta interior e mesmo o fracasso.

– O encontro com o rosto bondoso de Deus. Tanto caminhos e descaminhos para o encontro com Deus. O erro que Domingos encontrou no caminho de tanta gente que buscava um Deus e que encontrou caminhos de desafirmação da bondade da sua Criação, incentivou-o no compromisso com o anúncio do verdadeiro Deus.

Afinal é preciso oferecer o vinho novo, substituir a água das talhas por um vinho que permita a continuação da festa das núpcias do Cordeiro com a humanidade. Possivelmente os convidados de Caná e de Caleruega terão bebido bem, talvez tenham ficado com coração alegre como sugere o Salmo. Nestes dias, logo na primeira conferência do Cardeal Cantalamessa à Cúria Pontifícia o pregador da Casa Pontifícia aludia à “sóbria ebriedade” que o Espírito provoca no coração do crente. Servir o vinho em Caleruega, servir a Palavra, é servir a bebida que se toma com aquela “epiousion” (sobre substancial) aquele do qual “omnem delectamentum in se habentem” (que contém toda a doçura). Uma bebida e um alimento que saciam dimensões da pessoa humana em dimensões de uma outra essencialidade.

Pode parecer que nos afastámos muito do conto original com que iniciámos esta segunda reflexão, ou talvez não. Naquela tarde em Caleruega serviu-se o vinho da alegria, da convivialidade que sustentou os que nada tinham e deu esperança aos que tinham alguma coisa. Também este sinal é preanuncio dessa mesa representada na Mascarella em que irmãos retomam as forças para recomeçar o caminho do serviço do anúncio do vinho novo do Espírito.

Por certo que na sua casa paterna e materna começou aquele milagre o da vida de alguém ao serviço dessa ébria alegria que perscruta apenas no olha para Salvador.

Seremos nós capazes de oferecer esse vinho de alegria e fraternidade.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


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