À MESA COM DOMINGOS: À mesa em Igreja as suas idas a Roma

6ª Conferência: À mesa em Igreja as suas idas a Roma

“Frei Domingos acompanhou o Bispo Fulco na sua ida ao Concílio e, também, para expor ao Papa Inocêncio o desejo de ambos que confirmasse a Ordem de frei Domingos de seus companheiros que devia chamar-se de Pregadores. Suplicariam também ao Papa que lhe confirmasse as rendas, tanto as outorgadas pelo conde de Monfort, como pelo próprio bispo. O Romano Pontífice escutou a súplica que lhe fizeram e animou frei Domingos a voltar para junto dos seus frades para ter com eles uma deliberação. Deviam escolher alguma das regras já aprovadas, o bispo devia assignar-lhes uma igreja e, cumpridos estes requisitos deveria voltar ao Papa para receber a confirmação da Ordem”.

Esta passagem colhida no texto do Beato Jordão de Saxónia sobre as Origens da Ordem dos Pregadores faz dar um pulo no tempo. O encontro com o estalajadeiro em Toulouse, de que falámos no último encontro deve situar-se em 1203, no Outono. Este encontro com o Papa Inocêncio III deve situar-se em Outubro de 1215. Quantas experiências de pregação já tinham sido experimentadas por Domingos: a pregação no meio dos cátaros, a estadia em Fanjeaux, a fundação de Prouilhe, a casa de Pierre Seila em Toulouse…

Mas Domingos sente necessidade de ir a Roma suplicar ao Papa a aprovação da Ordem. Após este encontra volta a Toulouse e escolhe com os seus frades a Regra de Santo Agostinho.

Volta a Romano ano seguinte, mais ou menos um ano depois no fim do Outono, início do Inverno de 1216. Já era um novo Papa que então ocupava a cátedra de Pedro, o Papa Honório III, que acolheu o projeto e confirmou as rendas outorgadas, como base para o apoio da obra da pregação.

Neste período S. Domingos obtém do Papa duas Bulas aquela datada 16 de Dezembro de 1216 e uma outra data de 21 de Janeiro de 1217, que protegem assistem a Ordem com aquilo que era tido como necessário para a vida e sustento dos frades no trabalho da pregação.

Quem ler a primeira Bula não lhe achará grande interesse, pois quase só refere os bens materiais, confirmando-os a favor da Ordem O segundo texto é muito mais belo, porquanto exorta os frades a que mantenham a viver o seu carisma próprio: “como servos fiéis empreguem os talentos que lhes foram confiados para os entregar ao Senhor duplicados, como invictos atletas de Cristo”.

Nesta reflexão gostaria de falar de uma outra mesa da qual nos devemos aproximar que é a Igreja. A missa de S. Domingos tem como antífona de entrada um texto tirado do livro do Bem-Sirac 15, 5 assim traduzido: No seio da Igreja (no texto comunidade) o Senhor deu-lhe a palavra e revestiu-o de espírito de sabedoria e de inteligência”. Frequentemente invocamos S. Domingos como “Luz da Igreja”.

Domingos foi um homem de Igreja, não fez um grupo à parte. Às vezes oiço falar por parte de alguns de Igreja identificando- a com os seus objetivos de grupo. S. Domingos foi um servidor da comunhão da Igreja, a sua pregação aos hereges era um esforço para trazer as pessoas à comunhão com a Igreja.

Há alguns aspetos da relação com a Igreja que gostaria de sublinhar nesta reflexão.

O primeiro aspeto que gostaria de sublinhar é o sentido de Igreja deveremos viver. Uma comunidade dominicana não pode viver à margem da Igreja em primeiro lugar na sua dimensão local. A vida das comunidades dominicanas no nosso país, tanto nos leigos como nos religiosos e religiosas é felizmente um sinal muito positivo desta identificação das igrejas locais. Geralmente são muito disponíveis e muito empenhados na dinamização das suas comunidades paroquiais e diocesanas e isto é muito belo. Nunca uma comunidade dominicana pode ser uma “capelinha” no local onde se encontra.

Desde o início da vida da Ordem que as nossas capelas e igrejas estiveram abertas, para que as pessoas nelas pudessem celebrar a fé. O Papas concederam que as se celebrasse a fé mesmo quando numa determinada cidade estava fustigada pelo interditos, muito comuns na Idade Média. Isto é importante porque locais onde podemos exercer a pregação e o acolhimento. Porém, não são locais à margem da Igreja diocesana celebrando a sua fé totalmente alheios aos projetos e dinamizações propostas pela comunidade diocesana. São dimensões que todos conhecemos e que não podemos esquecer.

A outra dimensão de Igreja é a fidelidade ao seu ensino. De certo uma fidelidade criativa e tantas vezes sofrida. Quantos dos nossos irmãos sofreram pela sua fidelidade criativa à Igreja. Uma vez muito jovem fiquei chocado com um irmão que me interrogava sobre um problema de teologia moral ao qual dei uma resposta que me pareceu sensata, mas com referência ao ensino da Igreja ao que ele me replicou: “isso é teologia romana”. Hoje isto faz-me sorrir, certamente este irmão nunca percebeu o que quer dizer magistério e, apesar de dominicano, nunca leu o P. Congar. Fidelidade na doutrina, fidelidade às normas litúrgicas, perceção do que diz a Igreja sobre os diversas matérias.

Estamos perante uma fase de contestação, sempre estamos. Uma vezes de teor mais progressistas outras de teor mais conservador, que agora parecem tomar particular força, mesmo em muitos clérigos e movimentos, esta contestação quando provoca divisão deve ser cuidadosamente evitada. Somos sinais de comunhão na Igreja essa é uma dimensão fundamental da nossa vocação.

Mas há outras duas dimensões ainda que gostaria de sublinhar e que nem sempre são fáceis de gerir.

Em 1994 já lá vão uns anos a CIVSVA escreveu um documento que é importante reler de vez em quando. Tem por título a “Vida fraterna em comunidade”. Apesar de já ter alguns anos, este texto revela ter a sua atualidade. Coloca-nos a questão do equilíbrio entre a nossa vida comunitária e a presença a grupos eclesiais e a paróquias.

Na nossa Província houve, em certos momentos, uma certa rejeição do serviço paroquial como espaço de serviço dos dominicanos. Não vou tomar, nem me compete tomar posição aqui. O que é preciso perceber é que onde quer que estejamos, quaisquer que forem os nossos apostolados há um valor fundamental a preservar que é o equilíbrio dos valores fundamentais que constituem a nossa vida.

Prima entre todos eles a nossa vida em comunidade. Mas são igualmente valores a desenvolver: a celebração fiel da nossa oração comunitária, o tempo para os estudo e a reflexão pessoal e comunitário, os tempos de silêncio e de recreio. A falta de fidelidade a estes elementos da nossa vida, ainda que por envolvimento em atividades apostólicas não é sinal de fidelidade à Igreja que reconhece em nós uma vocação específica que enriquece todo o tecido da Igreja. Somos fiéis à Igreja na medida em que formos fiéis ao nosso carisma específico. As experiências apostólicas que induzem ao individualismo e ao relaxamento dos valores da vida religiosa tendem desnaturar a nossa vocação. Muitos de nós já terão feito esta experiência que tem aspetos muito negativos.

A outra dimensão que gostava de sublinhar é uma que era muito caro ao anterior Mestre da Ordem: sermos sinal de igreja para a igreja. Bruno Cadoré teve na sua juventude uma forte experiência eclesial no Haiti, conheceu vibrantes expressões eclesiais e isso marcou o seu pensamento.

A família dominicana contém uma grande diversidade de dons carismas: clérigos e leigos, religiosas contemplativas e religiosas de vida apostólica, institutos seculares e jovens. Esta diversidade congrega os mais importantes carismas da Igreja Universal. Viver em fraternidade e em complementaridade estes diversos carismas é um desafio muito belo que na Ordem, como num pequeno laboratório se pode experimentar de forma tão harmoniosa.

Se há coisa que no espaço da Província Dominicana Portuguesa funciona bem é esta interligação dos ramos. É um assunto a que voltarei.

Agora gostaria apenas de sublinhar que esta forma de viver é particularmente apelativa, numa época em que, mesmo na Ordem, se vai desenvolvendo o modelo de uma Igreja muito clerical, em muitos aspetos pré conciliar no que à eclesiologia diz respeito, apesar dos constantes apelos do Papa Francisco. Não ministérios superiores nem inferiores, há uma igreja que deve continuar a ser como aquela a que alude Paulo na 1ª Cor, onde há uma riqueza de carismas, que se vivem na força da comunhão que a caridade deve gerar.

Estas reflexões que parecem apenas referidas aos tempos de hoje têm a sua raiz histórica na própria comunidade originária e Prouilhe onde consagradas clérigos e leigos se juntaram para afirmar a obra da Pregação.

Os tempos atuais reclamam como naquele tempo novos modelos eclesiais mais próximos da comunidade primitiva de Jerusalém que S. Domingos toma como modelo para se lançar no anúncio da Palavra.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


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