Por ocasião dos 500 anos do início das actividades docentes de Francisco de Vitoria em Salamanca, o Mestre da Ordem convida os dominicanos a redescobrir os fundamentos dos direitos humanos na justiça, na dignidade humana e no bem comum.
O Frei Gerard Francisco Timoner III, OP, Mestre da Ordem, convocou a família dominicana a resgatar os fundamentos da justiça que sustentam os direitos humanos, por meio de uma carta que marca o quinto centenário do início do ensino de Francisco de Vitoria na Universidade de Salamanca.
Datada de 1º de outubro, a carta, intitulada “Para além dos direitos: Francisco de Vitoria e a recuperação da justiça”, analisa como o pensamento desse teólogo dominicano pode orientar as respostas contemporâneas a questões como a guerra, a migração, a autoridade política e as transformações tecnológicas. O texto também reflete sobre a relação entre a pregação, o serviço à dignidade humana e a presença da Ordem nas Nações Unidas.
A efeméride celebra o momento em que, em 1526, Vitoria assumiu a cátedra principal de teologia na Universidade de Salamanca. No início deste ano, em 5 de junho, a instituição concedeu a Vitoria um doutorado honoris causa póstumo. O Frei Pablo Carlos Sicouly, OP, sócio do Mestre para a vida intelectual, recebeu a distinção em nome da Ordem.
Na carta, o Mestre apresenta Vitoria como um intérprete criativo de São Tomás de Aquino, que aplicou princípios teológicos a questões surgidas a partir dos encontros dos europeus com os povos das Américas. Sua obra desenvolveu-se por meio de um intercâmbio entre o estudo e a experiência missionária — uma colaboração que continua a fundamentar o chamado “processo de Salamanca” da Ordem.
A carta destaca a defesa que Vitória faz dos povos indígenas das Américas, cuja posse de bens e autoridade política legítima não dependiam do baptismo cristão ou do reconhecimento por parte dos governantes europeus. Adverte ainda contra a idealização do seu legado, reconhecendo que os argumentos relativos às viagens e ao comércio poderiam ser utilizados para justificar conquistas.
A carta conclui convidando a Ordem a fazer do aniversário uma ocasião para renovar a sua responsabilidade: “Comemorar o quinto centenário do ensinamento de Vitória em Salamanca não é apenas recordar o que ele ensinou, mas renovar a tarefa para a qual o seu pensamento nos chama: discernir, com honestidade intelectual e coragem moral, o que a justiça exige de nós nas circunstâncias do nosso tempo”.