«Nossa época sofre do mal da banalidade». Entrevista com Timothy Radcliffe (2014)

Depois que a Éditions du Cerf reeditou dois dos seus livros (Eu vos chamo de amigos e Que a vossa alegria seja perfeita), o grande teólogo dominicano concedeu uma entrevista exclusiva ao Le Point.

A entrevista é de Jérôme Cordelier e publicada no sítio francês Le Point, 19-04-2014. A tradução é de André Langer.
(retirado de Instituto Humantário Unisinos)

 

O senhor conversou longamente com o Papa Francisco em privado. Como o encontrou?

Como alguém que está bem. Eu fiquei impressionado com sua disponibilidade. Ele nunca olhou no relógio durante toda a nossa conversa. E ele não procurava ter o controle sobre mim. Este elemento é muito importante para compreender sua espiritualidade e sua ação. O Ocidente, em todo o caso a França e a Grã-Bretanha nos últimos quatro séculos, foi marcado por uma cultura do controle, e a Igreja foi afetada por isso. E é lutando por sua liberdade, de Constantino ao comunismo, que o Vaticano tornou-se uma monarquia. Uma monarquia que o Papa Francisco hoje quer desfazer, reduzindo ao mínimo os mecanismos de controle no interior do Vaticano. É por isso que nomeou esse grupo de oito cardeais para ter alguma independência.

Sob Bento XVI, o senhor deplorava o “problema de governança na cúpula da Igreja”, pedindo para “mudar o funcionamento do Vaticano” (Ler Le Point n. 1939, de 12 de novembro de 2009). Chegamos a isso hoje?

Há menos descontinuidade entre Bento XVI e Francisco do que se diz. O primeiro realizou etapas teológicas que o segundo coloca em prática. Mas o Papa Francisco fez exatamente o que eu esperava. O que ele proporciona, nós esperamos desde o Vaticano II! Ele não quer mais que o Papa viva como um monarca rodeado de uma corte. Ele se apresenta como o Bispo de Roma. Em cada nível da Igreja, ele quer introduzir mais debates e partilhar mais as responsabilidades. Ele trabalha para dar mais autoridade às Conferências Episcopais nacionais e fazer com que os Sínodos não sejam mais apenas estúdios de gravação, mas fóruns onde se discute e onde se toma decisões. Ele quer dar espaço ao Espírito Santo para introduzir respirações. A Igreja tem necessidade de espontaneidade. Chega de paralisia!

Francisco é o “salvador” da Igreja?

Não! Seria horrível dizer isso. Francisco não procura impor sua vontade à Igreja. A mídia sempre pensa que os papas são como políticos, que chegam com um programa de partido político, para “salvar” o país. Mas não é assim que as coisas funcionam entre nós. Nós respondemos à vontade de Deus discernida na oração e na discussão. Todo o mundo fala do Papa Francisco, mas ele, eu posso lhe garantir, só deseja uma coisa: desaparecer. Ele deseja que o Papa ocupe um lugar menos importante. É o paradoxo da sua situação.

Ele provocou muitas expectativas, e as reformas correm o risco de levar muito tempo. Não assumiu o risco de que as decepções cheguem à mesma altura das expectativas que suscitou?

Francisco sempre disse claramente que a verdadeira reforma é demorada. Devemos ser pacientes e deixar as coisas acontecer. Se o Papa procurasse forçar o caminho, provocaria divisões no interior da Igreja. Vivemos num mundo de comunicação instantânea que exige respostas instantâneas, mas isso não resolve nada. Nós caminhamos numa direção desconhecida, o que gera, e podemos compreender isso, medos. Mas eu creio que Francisco pensa que não precisamos saber tudo previamente, pois seria um erro querer controlar tudo e que devemos estar abertos ao Espírito Santo.

Ter as rédeas soltas para tocar nos fundamentos da doutrina católica?

Mas os fundamentos desta doutrina nos oferecem muito mais liberdade do que podemos pensar! Eu não vejo a doutrina como algo que atrapalha; a ortodoxia, na minha opinião, não fecha as respostas; pelo contrário, ela abre um grande espaço. Devemos desconfiar do preconceito doutrinário contra as doutrinas que existe atualmente em nossa sociedade.

Ao mesmo tempo, muitos católicos esperam evoluções, sobre os divorciados recasados, por exemplo.

Isso é outro assunto. E não é uma questão de doutrina, mas de disciplina. Quando digo disciplina, não se trata de punição, bem entendido, mas da organização da vida de um discípulo. É preciso mudar esta disciplina. Quando era arcebispo de Buenos AiresJorge Mario Bergoglio testemunhou muita flexibilidade para com os divorciados recasados; agora, como Papa, penso que ele realizará a abertura nesse ponto. Há muitas questões que não tem nada a ver com a doutrina, como o casamento dos padres, para o que temos necessidade de um debate aberto a fim de perceber o que é o melhor. O mais importante para Francisco não é o que ele pensa, mas o que Igreja decide.

Atitude muito jesuíta…

Ou dominicana. Ele quer que a comunidade decida, e esse modo de funcionamento é muito dominicano: a autoridade suprema da nossa ordem é o capítulo geral. Você sabe o que nós dizemos de Francisco? Que ele é um jesuíta que usa roupa de dominicano e quer ser franciscano.

Muitos observadores notaram que ele falava, especialmente em Lampedusa, como um líder político. O descrédito político reforça sua influência?

Papa toca as pessoas não somente pelo que ele diz, mas pelo que faz. Seus gestos são poderosos. Quando ele lava os pés de presos, dentre os quais encontra-se um muçulmano, o mundo se interessa. Quando ele abraça aquele homem terrivelmente desfigurado, o mundo fica surpreso. Em Lampedusa, não se tratava somente de acentuar a nossa indiferença em relação ao sofrimento dos migrantes. Ele celebrou uma missa num pequeno barco perto de onde muitas pessoas pereceram. Este gesto é muito mais eloquente do que muitas palavras; isso provocou a fome em nossos corações por um mundo mais justo e compassivo.

Como reage o homem de fé diante da desconfiança da classe política e, de modo mais geral, da classe dirigente?

O grande trabalhista inglês Toni Benn, que acabou de morrer, tinha essa famosa frase: “Toda carreira política acaba no fracasso. A minha terminou mais cedo que a maioria”. Em nossos dias, os políticos falam como economistas. Tudo é reduzido à economia, e nós perdemos um discurso mais humano. Todo político se vê como um salvador, de modo que a missão é impossível. O Papa tem uma vantagem: para ele, só o Cristo é salvador! Francisco e todos os líderes religiosos convidam a nos considerar comunidades de homens e mulheres, de ricos e pobres ligados por um mesmo destino e pela busca do bem comum. Nossas aspirações são muito mais profundas que o dinheiro.

O senhor, que viaja muito, observa essa mesma rejeição em todas as partes do mundo?

Eu viajo muito, mas fico pouco tempo em um país ou continente, e minhas impressões podem, por isso, ser superficiais. Mas eu percebo que, no mundo em desenvolvimento – especialmente na África, uma parte da América Latina e da Ásia –, as instituições ocidentais como o Banco Mundial ou o FMI pressionam os países para que atentem apenas para o lado econômico, e ao fazer isso impõem soluções que sabotam o bem comum. Muitas culturas preservaram um sentido do bem comum que está sendo minado por esta pressão vinda do Ocidente.

O senhor se apresenta com “amigo dos pecadores”. Qual é, na sua opinião, o maior dos pecados do nosso tempo?

O pecado mais típico do nosso tempo é a superficialidade, que impõe apenas pequenas satisfações. Uma grande parte da nossa cultura contemporânea trivializa os desejos do coração humano. No meu quarto de hotel, em Los Angeles, de onde venho, passando uma centena de canais de televisão, não encontrei nada de interessante. É profundamente deprimente! Hannah Arendt escreveu sobre a “banalidade do mal”, e a nossa época, penso, sofre do mal da banalidade. O coração e o espírito humanos são feitos para compreender o sentido da existência, saciar a nossa sede de compreensão. Como cristão, penso que o objetivo é buscar no amor infinito o que é Deus. Uma sociedade que anestesia a alma com pequenas satisfações e distrações triviais se afundará no tédio.

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