Author Archives: Gabriel Silva

À MESA COM DOMINGOS: À mesa da Eucaristia

7ª Conferência: À mesa da Eucaristia

“Disse também que quando o ajudava na celebração da Missa se fixava no seu rosto e via correr as lágrimas pela cara com tanta abundância que uma não dava espera à outra”.

É este o testemunho de Fr. Bonviso de Piacenza, companheiro de S. Domingos em diversas viagens. Este testemunho faz parte das atas dos testemunhos recolhidos em Bolonha para a canonização de S. Domingos. Outros testemunhos confirmam que S. Domingos celebrava todos dias, o que não era comum naqueles tempos, e sempre com grande efusão de lágrimas.

Já vi muita gente celebrar com mais atenção ou menos atenção, com maior gosto estético ou menos atenção à beleza dos gestos, com cuidado pelo cumprimento das rúbricas ou esquecendo-as, com grande escrúpulo ou com expressões de comoção, mas apenas uma vez vi alguém celebrar com esta intensidade que vemos refletida na forma de celebrar de S. Domingos. A pessoa que vi assim celebrar foi o Dom Hélder Câmara uma vez que tive oportunidade de estar mais perto dele. Recordo como me marcou essa celebração e não podemos dizer que este homem tinha uma piedade intimista.

A expressão do nosso Pai ao celebrar a Eucaristia faz-me compreender como a mesma era fundamental no exercício da missão de anúncio à qual S. Domingos se sentiu chamado.

Na minha Lectio Divina tomo muitas vezes reflexões de pastores de igrejas reformadas. As igrejas reformadas, ditas protestantes têm muitas vezes uma aproximação à Escritura muito profunda cheia de conhecimento, mas também de beleza, mas falta-lhes algo: a força do sacramento.

O nosso Bispo D. António Marto definiu a momento como momento de emergência eucarística. O ano passado e o corrente levou muita gente, em momento de alívio a não voltar à celebração eucarística. Justificadamente temos um certo receio que uma situação de exceção se torne situação de continuidade. O problema não está tanto em cumprimento do preceito, mas no perceber a essencialidade da Eucaristia no contexto da vida cristã.

A visão que as gerações anteriores passaram da Eucaristia foi a de uma terrível obrigação que ensombrava as manhãs de Domingo. Timothy Radcliffe no seu livro sobre a Eucaristia, curiosamente escrito a pedido do Arcebispo Primaz da igreja anglicana, para ser proposta de leitura para os seus pastores durante uma Quaresma, começa por contar a história, reinventada pelo autor a partir de uma outra passada num contexto diferente, de um homem dorminhoco que tardava em levantar-se apesar da própria mãe o instar para tal. Depois de tentativas infrutíferas, a mãe deu-lhe três argumentos fundamentais: a Missa é importante, esse dia era Domingo e ele era o Bispo da diocese e deveria presidir à mesma.

Diante de Deus e de nós mesmos interroguemo-nos sobre o lugar da Eucaristia na nossa vida e missão.

Neste momento eu próprio na estrutura da CIRP diocesana estou a preparar um projeto de trabalho para que os institutos de vida consagrada possam refletir e partilhar com a igreja diocesana o sentido da Eucaristia na vocação, vida e missão na sua família espiritual. Este desafio deixo-o a cada um neste dia de retiro.

Deixo da minha parte alguns elementos que parecem importantes para esta reflexão. Com o Concílio afirmamos que a Eucaristia é o ponto de partida e de chegada de toda a nossa atividade apostólica. Na sua carta pastoral D. António Marto escreve que a Eucaristia é como uma abóbada da reflexão pastoral.

O primeiro elemento é perceber o mistério da presença única de Jesus no mistério eucarística, presença real, mas presença próxima tão frágil como a da matéria do Pão. Uma experiência incarnatória que nos espanta e encanta pela sua proximidade, simplicidade e ao mesmo tempo grandeza. O tudo da ação de Cristo está no sacramento da Eucaristia: a sua paixão, o dom de si mesmo até ao fim e ao mesmo tempo a presença de ressuscitado como casa dos discípulos de Emaús. De fato a grandeza e a simplicidade caminham juntas, de forma tão próxima e complementar, o sublime e o quotidiano unem-se intimamente, o espaço e a eternidade cunham a mesma moeda.

Compreendo Tomás que diante do mistério contemplado na Eucaristia já nada tem valor:

Eu vos adoro devotamente, ó Divindade escondida,

Que verdadeiramente oculta-se sob estas aparências:

A Vós, meu coração submete-se todo por inteiro,

Porque, vos contemplando, tudo desfalece.

A vista, o tato, o gosto falham com relação a Vós,

Mas, somente em vos ouvir em tudo creio.

Creio em tudo aquilo que disse o Filho de Deus:

Nada mais verdadeiro que esta Palavra de Verdade.

Na cruz, estava oculta somente a vossa Divindade,

Mas aqui, oculta-se também a vossa Humanidade;

Eu, contudo, crendo e professando ambas,

Peço aquilo que pediu o ladrão arrependido.

Não vejo, como Tomé, as vossas chagas;

Entretanto, vos confesso meu Senhor e meu Deus.

Faça que eu sempre creia mais em Vós,

Em vós esperar e vos amar.

Ó memorial da morte do Senhor!

Pão vivo que dá vida aos homens!

Faça que minha alma viva de Vós

E que à ela seja sempre doce este saber.

Senhor Jesus, bondoso pelicano,

Lava-me, eu que sou imundo, em teu sangue.

Pois que uma única gota faz salvar

Todo o mundo e apagar todo pecado.

Ó Jesus, que velado agora vejo,

Peço que se realize aquilo que tanto desejo;

Que eu veja claramente vossa face revelada

Que eu seja feliz contemplando a vossa glória.

Entre as expressões que o texto utiliza, há uma que me chama a atenção de modo muito particular: bondoso pelicano. Sabemos que o pensamento antigo pensava que o pelicano alimentava as suas crias com o seu próprio sangue. Hoje percebe-se que não é assim. Mas sim somos alimentados pelo próprio corpo do Senhor entregue por nós e com o seu sangue derramado por nós. A Ordem, particularmente com S. Tomás deu uma grande ajuda a perceber a realidade do que acontece no altar. É tão profunda tão sublime esta realidade que nos deixa maravilhados. Ontem como hoje vale a pena na Eucaristia e na adoração silenciosa fitar a hóstia consagrada e perceber tudo o que de dom de amor nela se contém.

Temos que às vezes se celebre e se viva a Eucaristia tirando-lhe a sua transcendência. É um empobrecimento terrível.

Nas Igrejas orientais o canto do “trisaguión” que, como sabemos tem a sua raiz na texto de Isaías em que descreve a sua vocação, é entendido como um canto em que a majestade de Deus abraça todo a celebração do mistério eucarístico.

Porém a eucaristia para além de ser contemplada, configura-nos com Cristo e, a partir do Pão que recebemos tornamo-nos, nós próprios pão para os demais. S. Inácio de Antioquia num texto que, certamente conhecemos bem, percebe o seu martírio em chave eucarística: o seu martírio, moído pelas dentes das feras, será ser ele próprio, pão eucarístico.

Já tinha preparado esta conferencia chegou-me um vídeo que continha uma canção que se desenvolvia ao longo do tema: “diz-me como ser pão?”

A nossa vocação é fazer da Palavra pão para muitos, mas tal nunca poderá conseguir-se desvinculados da Eucaristia. Ser pão no conteúdo do que transmitimos e na forma como o transmitimos tem que ter a marca eucarística.

Na Eucaristia reconhecemos a grandeza do dom e a urgência de o oferecermos na gratuidade, pois na gratuidade o recebemos.

Por tudo isto, e se atentarmos na profundidade de tudo isto percebemos quanto a Eucaristia é central para nós, provocando com justeza lágrimas de gratidão por tão grande dom, as lágrimas que Domingos derramava abundantemente quando celebrava a Eucaristia.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


À MESA COM DOMINGOS: À mesa em Igreja as suas idas a Roma

6ª Conferência: À mesa em Igreja as suas idas a Roma

“Frei Domingos acompanhou o Bispo Fulco na sua ida ao Concílio e, também, para expor ao Papa Inocêncio o desejo de ambos que confirmasse a Ordem de frei Domingos de seus companheiros que devia chamar-se de Pregadores. Suplicariam também ao Papa que lhe confirmasse as rendas, tanto as outorgadas pelo conde de Monfort, como pelo próprio bispo. O Romano Pontífice escutou a súplica que lhe fizeram e animou frei Domingos a voltar para junto dos seus frades para ter com eles uma deliberação. Deviam escolher alguma das regras já aprovadas, o bispo devia assignar-lhes uma igreja e, cumpridos estes requisitos deveria voltar ao Papa para receber a confirmação da Ordem”.

Esta passagem colhida no texto do Beato Jordão de Saxónia sobre as Origens da Ordem dos Pregadores faz dar um pulo no tempo. O encontro com o estalajadeiro em Toulouse, de que falámos no último encontro deve situar-se em 1203, no Outono. Este encontro com o Papa Inocêncio III deve situar-se em Outubro de 1215. Quantas experiências de pregação já tinham sido experimentadas por Domingos: a pregação no meio dos cátaros, a estadia em Fanjeaux, a fundação de Prouilhe, a casa de Pierre Seila em Toulouse…

Mas Domingos sente necessidade de ir a Roma suplicar ao Papa a aprovação da Ordem. Após este encontra volta a Toulouse e escolhe com os seus frades a Regra de Santo Agostinho.

Volta a Romano ano seguinte, mais ou menos um ano depois no fim do Outono, início do Inverno de 1216. Já era um novo Papa que então ocupava a cátedra de Pedro, o Papa Honório III, que acolheu o projeto e confirmou as rendas outorgadas, como base para o apoio da obra da pregação.

Neste período S. Domingos obtém do Papa duas Bulas aquela datada 16 de Dezembro de 1216 e uma outra data de 21 de Janeiro de 1217, que protegem assistem a Ordem com aquilo que era tido como necessário para a vida e sustento dos frades no trabalho da pregação.

Quem ler a primeira Bula não lhe achará grande interesse, pois quase só refere os bens materiais, confirmando-os a favor da Ordem O segundo texto é muito mais belo, porquanto exorta os frades a que mantenham a viver o seu carisma próprio: “como servos fiéis empreguem os talentos que lhes foram confiados para os entregar ao Senhor duplicados, como invictos atletas de Cristo”.

Nesta reflexão gostaria de falar de uma outra mesa da qual nos devemos aproximar que é a Igreja. A missa de S. Domingos tem como antífona de entrada um texto tirado do livro do Bem-Sirac 15, 5 assim traduzido: No seio da Igreja (no texto comunidade) o Senhor deu-lhe a palavra e revestiu-o de espírito de sabedoria e de inteligência”. Frequentemente invocamos S. Domingos como “Luz da Igreja”.

Domingos foi um homem de Igreja, não fez um grupo à parte. Às vezes oiço falar por parte de alguns de Igreja identificando- a com os seus objetivos de grupo. S. Domingos foi um servidor da comunhão da Igreja, a sua pregação aos hereges era um esforço para trazer as pessoas à comunhão com a Igreja.

Há alguns aspetos da relação com a Igreja que gostaria de sublinhar nesta reflexão.

O primeiro aspeto que gostaria de sublinhar é o sentido de Igreja deveremos viver. Uma comunidade dominicana não pode viver à margem da Igreja em primeiro lugar na sua dimensão local. A vida das comunidades dominicanas no nosso país, tanto nos leigos como nos religiosos e religiosas é felizmente um sinal muito positivo desta identificação das igrejas locais. Geralmente são muito disponíveis e muito empenhados na dinamização das suas comunidades paroquiais e diocesanas e isto é muito belo. Nunca uma comunidade dominicana pode ser uma “capelinha” no local onde se encontra.

Desde o início da vida da Ordem que as nossas capelas e igrejas estiveram abertas, para que as pessoas nelas pudessem celebrar a fé. O Papas concederam que as se celebrasse a fé mesmo quando numa determinada cidade estava fustigada pelo interditos, muito comuns na Idade Média. Isto é importante porque locais onde podemos exercer a pregação e o acolhimento. Porém, não são locais à margem da Igreja diocesana celebrando a sua fé totalmente alheios aos projetos e dinamizações propostas pela comunidade diocesana. São dimensões que todos conhecemos e que não podemos esquecer.

A outra dimensão de Igreja é a fidelidade ao seu ensino. De certo uma fidelidade criativa e tantas vezes sofrida. Quantos dos nossos irmãos sofreram pela sua fidelidade criativa à Igreja. Uma vez muito jovem fiquei chocado com um irmão que me interrogava sobre um problema de teologia moral ao qual dei uma resposta que me pareceu sensata, mas com referência ao ensino da Igreja ao que ele me replicou: “isso é teologia romana”. Hoje isto faz-me sorrir, certamente este irmão nunca percebeu o que quer dizer magistério e, apesar de dominicano, nunca leu o P. Congar. Fidelidade na doutrina, fidelidade às normas litúrgicas, perceção do que diz a Igreja sobre os diversas matérias.

Estamos perante uma fase de contestação, sempre estamos. Uma vezes de teor mais progressistas outras de teor mais conservador, que agora parecem tomar particular força, mesmo em muitos clérigos e movimentos, esta contestação quando provoca divisão deve ser cuidadosamente evitada. Somos sinais de comunhão na Igreja essa é uma dimensão fundamental da nossa vocação.

Mas há outras duas dimensões ainda que gostaria de sublinhar e que nem sempre são fáceis de gerir.

Em 1994 já lá vão uns anos a CIVSVA escreveu um documento que é importante reler de vez em quando. Tem por título a “Vida fraterna em comunidade”. Apesar de já ter alguns anos, este texto revela ter a sua atualidade. Coloca-nos a questão do equilíbrio entre a nossa vida comunitária e a presença a grupos eclesiais e a paróquias.

Na nossa Província houve, em certos momentos, uma certa rejeição do serviço paroquial como espaço de serviço dos dominicanos. Não vou tomar, nem me compete tomar posição aqui. O que é preciso perceber é que onde quer que estejamos, quaisquer que forem os nossos apostolados há um valor fundamental a preservar que é o equilíbrio dos valores fundamentais que constituem a nossa vida.

Prima entre todos eles a nossa vida em comunidade. Mas são igualmente valores a desenvolver: a celebração fiel da nossa oração comunitária, o tempo para os estudo e a reflexão pessoal e comunitário, os tempos de silêncio e de recreio. A falta de fidelidade a estes elementos da nossa vida, ainda que por envolvimento em atividades apostólicas não é sinal de fidelidade à Igreja que reconhece em nós uma vocação específica que enriquece todo o tecido da Igreja. Somos fiéis à Igreja na medida em que formos fiéis ao nosso carisma específico. As experiências apostólicas que induzem ao individualismo e ao relaxamento dos valores da vida religiosa tendem desnaturar a nossa vocação. Muitos de nós já terão feito esta experiência que tem aspetos muito negativos.

A outra dimensão que gostava de sublinhar é uma que era muito caro ao anterior Mestre da Ordem: sermos sinal de igreja para a igreja. Bruno Cadoré teve na sua juventude uma forte experiência eclesial no Haiti, conheceu vibrantes expressões eclesiais e isso marcou o seu pensamento.

A família dominicana contém uma grande diversidade de dons carismas: clérigos e leigos, religiosas contemplativas e religiosas de vida apostólica, institutos seculares e jovens. Esta diversidade congrega os mais importantes carismas da Igreja Universal. Viver em fraternidade e em complementaridade estes diversos carismas é um desafio muito belo que na Ordem, como num pequeno laboratório se pode experimentar de forma tão harmoniosa.

Se há coisa que no espaço da Província Dominicana Portuguesa funciona bem é esta interligação dos ramos. É um assunto a que voltarei.

Agora gostaria apenas de sublinhar que esta forma de viver é particularmente apelativa, numa época em que, mesmo na Ordem, se vai desenvolvendo o modelo de uma Igreja muito clerical, em muitos aspetos pré conciliar no que à eclesiologia diz respeito, apesar dos constantes apelos do Papa Francisco. Não ministérios superiores nem inferiores, há uma igreja que deve continuar a ser como aquela a que alude Paulo na 1ª Cor, onde há uma riqueza de carismas, que se vivem na força da comunhão que a caridade deve gerar.

Estas reflexões que parecem apenas referidas aos tempos de hoje têm a sua raiz histórica na própria comunidade originária e Prouilhe onde consagradas clérigos e leigos se juntaram para afirmar a obra da Pregação.

Os tempos atuais reclamam como naquele tempo novos modelos eclesiais mais próximos da comunidade primitiva de Jerusalém que S. Domingos toma como modelo para se lançar no anúncio da Palavra.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


À MESA COM DOMINGOS: À mesa com o estalajadeiro de Toulouse

5º Conferência: À mesa com o estalajadeiro de Toulouse

“Chegado a Toulouse percebeu que os seus naturais estavam num caminho de perdição, desde há algum tempo, pelo contágio de tão depravada heresia. Então começou a comover-se profundamente, movido pela compaixão por tão miserável estado. Naquela mesma noite tendo sido recebidos na hospedaria da mencionada cidade, o bem-aventurado Domingos, com ajuda do Espírito de Deus converteu à fé católica um hospedeiro herege convencendo-o quer pelo modo afável de persuadir, quer pela irrefutável conexão de argumentos. Pois não era possível resistir à sabedoria e ao Espírito que falava pelo bem-aventurado Domingos”.

É assim que Pedro Ferrando descreve a conversão do hospedeiro de Toulouse. Foi este o primeiro impacto que S. Domingos teve com a heresia. Vai na viagem às Marcas com o seu bispo Diego e passa pelas terras do atual Sul de França (naquele tempo não existe o conceito atual de França) terrivelmente atingidos pela heresia cátara. Será esta a região que S. Domingos escolhe como campo de pregação e será nesta cidade que se estabelece uma comunidade de pregadores embrião da Ordem. Será ainda desta cidade que, em 15 de Agosto de 1217, sairão os frades a pregar e a fundar comunidades em diversos espaços da Europa.

O encontro com o estalajadeiro foi um encontro marcante e configura um novo estilo de pregação. Não parece falta de respeito imaginar como num filme aquela noite: apesar de cansado da viagem não recolhe ao lugar que lhe estava indicado para repousar, mas esteve atento ao olhar de rejeição com que foram acolhidos estes clérigos de hábito branco e capa negra à maneira dos cónegos. Deverá ter arranjado algum pretexto para uma conversa, quem sabe senão lhe terá pedido algo de comer ou de beber e ficou ali sentado dando espaço para que aquele homem, a pouco e pouco começasse a desenrolar as críticas à Igreja e à vida pouco edificante de algum clérigo.

O P. Timothy Radclyffe escreveu que a nossa Ordem nasceu num pub, escreveu e alguma vez lho ouvi também. Penso que é um pouco exagerada a afirmação, mas a conversa sobre coisas que levaram a uma conversão não se deu numa igreja ao som de cânticos melodiosos de órgão, deu-se num espaço bem pouco canónico. Isto faz-me lembrar o exemplo de um religioso, já entrado em idade, identificado pelo seu hábito visitava centros comerciais e abria-se à interpelação dos transeuntes, quantas conversas interessantes este irmão não terá tido. Eu próprio vivi a experiência que os irmãos na Bélgica oferecem: um bar em plena cidade universitária, com música ambiente e cerveja da sua produção onde passam tantos estudantes e onde, em cada noite se encontra sempre um dominicano que acolhe e acompanha, sem vergonha de servir uma cerveja ou um snack. São experiências muito interessantes e muito ricas.

De fato, o primeiro encontro de Domingos com um herege que reconduz à Igreja não parece ter sido em lugar muito canónico, talvez naquela noite não deixou mesmo de partilhar uma caneca de vinho com aquele homem, possivelmente inquieto no seu coração.

Uma primeira constatação: todo o local é local de anúncio. Sempre me apaixonaram figuras do catolicismo francês um deles é o Bispo Alfredo Ancel (1898-1984) foi um Bispo operário, com licença da Santa Sé, ordenado Bispo em 1946 era membro da sociedade dos Padres do Prado. Vivia com outros padres do seu instituto num bairro pobre de Lyon. Ao almoço frequentava um restaurante popular do bairro, era próximo, fez-se próximo.

É importante perceber com S. Domingos a importância desta proximidade, em terreno neutro onde não somos protegidos pela esfera religiosa. Muitas irmãs têm tido e têm esta experiência de proximidade em tantas casa de inserção onde a proximidade faz estender o Evangelho de forma tão bela quanto dinâmica. Todo o espaço é espaço de anúncio. Todo o anúncio do Evangelho é anúncio de proximidade. Haverá outros lugares onde Domingos e seus filhos se fizeram próximos das pessoas: a universidades, as suas casas implantadas no coração das cidades de portas abertas para acolher os que nelas queriam celebrar a sua fé ou sentir anúncio talvez inovador.

Mas continuemos a imaginar o que se passou naquela noite. Porventura o primeiro a falar foi o estalajadeiro, era ele que tinha dúvidas que estava revoltado com caricaturas de igreja que teria visto, escandalizado com a riqueza e imponência de igrejas e eclesiásticos. Domingos ouviu e certamente ouviu muito.

O ex mestre da Ordem fr. Bruno Cadoré dizia que a pregação tem de ser uma experiência de “conversação”, de diálogo, portanto, onde há palavra e silêncio, acolhimento e proposta, onde nunca sabemos tudo nem nunca há soluções já feitas para tudo porque cada um é único.

Domingos de Gusmão ouviu, às vezes em silêncio outras vezes deixando escapar lágrimas, mas sempre com um olhar complacente e certamente nunca reprovador. Às vezes dou-me conta que é difícil ouvir, queremos acabar depressa a conversa, destruindo rapidamente os argumentos do outro, certamente muitas vezes frágeis, com um preparado que trazemos numa imaginária maleta onde temos as receitas infalíveis. Não foi este o modo de agir de S. Domingos há um dar espaço, há um parar tudo para que fique apenas a pessoa que está diante de nós como aquela mulher trazida diante de Jesus para ser condenada. Todos se foram embora ficou apenas Jesus e ela, como escreveu Santo Agostinho e recordava o Papa Francisco na conclusão do Ano da misericórdia (curiosamente também o ano jubilar da Ordem), ficou a “mísera e a misericórdia”.

Ficaram apenas duas pessoas e o tempo parou à volta. Se soubéssemos escutar como Jesus como Domingos talvez que o nosso anúncio e testemunho fosse muito mais eloquente. Às vezes nas nossas conversas fica não só tanto por dizer, mas tanto por ouvir.

Com fina agudez o autor do texto dá-nos dois elementos importantes, dois adjetivos de particular importância no diálogo estabelecido: afável e irrefutável. Parecem contradizer-se estes dois elementos uma acolhe e o outro admoesta.

A afabilidade é sinónimo de compreensão de doçura a irrefutabilidade traduz uma serena convicção daquilo que estamos a dizer. São dois elementos de diálogo que se completam entre si e não se excluem mutuamente. Estamos certos que Domingos naquela noite terá explicado a fé manifestando uma íntima certeza daquilo que estava a anunciar, sem deixar de ser afável no trato e no diálogo.

Sempre me recordo de um dominicano espanhol o P. Bandera que aos noviços respondia com uma afável bonomia, sublinhando os pontos positivos das nossas frágeis argumentações e manifestando o que ainda faltava num caminho de encontro com a verdade. Há conversas com gente que pensa diferente que não têm porque não conduzir senão há harmonia e entendimento. Há conversas que são pontes e outras que cortes, mesmo quando o que corta possa estar mais perto da plena razão ou da verdade.

Como são os nossos diálogos? E entre aqueles em que falamos de Deus, mostram a serenidade do amor paterno de Deus ou a rigidez de um pensamento bem mais ideológico que de uma revelação de amor.

Vejo este problema no diálogo acerca de questões fraturantes, recentemente tivemos a questão da eutanásia que a todos nos choca. Como falamos disto, com que delicadeza cristã tratamos destas coisas que às vezes para nós não são senão seres de razão distanciados. Sendo convictos não deixemos de ser afáveis e sobretudo respeitar o que pensa diferente: vencer não é convencer, argumentar não é excluir as sementes de verdade e de bem que existem no coração de cada pessoa.

O encontro de S. Domingos com o estalajadeiro de Toulouse foi um ponto marcante na sua vida e deve-o ser marcante para os seus filhos anunciadores na Verdade na força da compaixão.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


ÀMESA COM DOMINGOS: A mesa da contemplação: a experiência de Osma

4ª Conferência: A mesa da contemplação: a experiência de Osma

Continuando a vida de Domingos, tomamos agora um texto muito interessante, desta vez de Pedro Ferrando: “Ele como lâmpada colocada sobre o candelabro ou como cidade assentada no cimo do monte (Mt 5, 15) era o deleite para os que com ele conviviam, oferecia um claro exemplo de religião. De fato, era assíduo na oração, o primeiro na caridade, inquieto pela compaixão, submetido aos súbditos pela humildade. Deus tinha-lhe concedido a graça de especial de chorar continuamente pelos pecadores e pelos desditosos e afligidos. Inflamado pelo zelo das almas que pereciam e movido pelo zelo da morada celeste, muitas vezes passava as noites em oração. Com frequência nas suas orações o gemer do coração era como um rugido (Sl 36,9). Não se podia conter, de modo que os seus gritos de dor se escutavam desde longe. Golpeava os ouvidos da divina clemência com esta especial petição a saber: que o seu coração pudera governar-se mais eficazmente por uma caridade semelhante à daquele que se entregou totalmente pela nossa salvação. Tendo lido e compreendidocom particular atençãoo livro que se intitula Conferencias dos Padres, buscou com sumo cuidado as sendas da salvação e conquistou os mais altos cumes da perfeição. Este livro trata da limpeza de coração dos vícios e da perfeição de todas as virtudes. A frequente leitura deste livro conduziu o discípulo de Cristo com a ajuda da graça a uma grande pureza de coração, às alturas da contemplação e à perfeição da doutrina espiritual”.

Temos diante nós uma descrição uma descrição bela e profunda da maneira como Domingos vivia em Osma, de onde sairá para o serviço da pregação. No texto temos uma referência a uma palavra que define o mais fundo da nossa vocação, a fonte de onde tudo brota: a contemplação.

Parece-me que a contemplação é o verdadeiro laboratório de onde brota a beleza e o empenhamento da ação apostólica.

Pode haver uma ideia errada da contemplação que a reduz a estados místicos algo raros. Conheci alguém que procurava medir a sua vida contemplativa pelos graus de perfeição tão bem descritos nas “Três idades da vida espiritual do P. Garrigou- Lagrange, um texto belíssimo que muitos de nós lemos nos tempos de formação. Pode haver uma confusão entre contemplação e experiência mística e tal é um real perigo.

A escola dominicana do século XVI de que são testemunhas maiores Fr. Luís de Granada e S. Bartolomeu dos Mártires, ou a espiritualidade francesa do século XVII na pessoa, por exemplo, de S. Francisco de Sales fazem-nos perceber que assim não é: a contemplação é o coração da vida cristã, adaptada e formas e lugares, segundo as diversas vocações cristãs.

Sou muito devedor no meu percurso espiritual a uma espiritualidade contemplativa ligada à vida. Esta espiritualidade desenvolveu-se muito em França e usa nomes como o de Madeleine Delbrel. Assistente que sou do Instituto Secular Caritas Christi sempre me confrontei como uma profunda espiritualidade vivida na total discrição, num chamamento que se traduz como uma vivida plenamente contemplativa e apostólica.

Descentrar a nossa vida do apelo da contemplação é o desviar a nossa vida e vocação do essencial. Em S. Domingos percebemos como essa vida interior alimenta o fogo imenso da caridade que ardia no seu coração e o inflamava de amor e zelo pelas almas.

A contemplação alimenta o zelo. As vezes sinto em mim e não posso deixar de o sentir à minha volta a falta desta centelha, deste fogo que ardia em Domingos, mas que não arde no nosso coração. Era na oração que se forjava o grito de Domingos: “Que será dos pecadores?”

Um irmão nosso escreveu assim de Domingos:

Era un’uomo che piangeva molto. 

Si vedeva scintillare
nelle sue lacrime un amore 
teneramente umano. 
Umano perché divino. 
E divino 
perché sgorgato dalla preghiera. 

La Parola di Dio lo bruciava, 
divorante come un fuoco 
e vasta come l’abisso. 

Non ha istituito un Ordine, 
ché lo ha piuttosto intimato: 
gli amici, loro malgrado,
finirono per unirsi con lui. 
E diede loro un Ordine da istituire. 
Messaggero dell’amore di Dio, 
portatore di sofferenza 
e di speranza immensa.
Uragano e rifugio, 
versava torrenti di pace, 
nelle strettoie
delle mezze verità ovattate,
delle convenienze mollicce 
e degli ardori spenti. 
Chi giaceva da tempo 
nelle tenebre di sempre 
vedeva 
la possibile
intrusione del giorno. 

Tale fu Domenico. 

Nessuno sfoggio di pietà bizzarra,
semplice umanità. 
Così semplice 
da non nascondere 
la rugiada della luce divina. 

Simone Tugwell op

Gosto muito deste texto que nos fala de espiritualidade. Um tema que temos muita dificuldade em afrontar. Quando falamos destas coisas pensamos logo em tempos de oração que fazemos ou que não fazemos, mas o ponto principal não é este. Em jogo não está tanto os tempos de oração em comum que fazemos ou deixamos de fazer. A contemplação é a nossa espinha dorsal. Creio que percebemos o que isto quer dizer. Pode ter outras expressões como a de configurar-nos com Cristo, deixar-se moldar por Ele. O Papa para utilizar uma linguagem percetível aos jovens, dizia no Bangladesh que Cristo deveria ser o software das nossas vidas com as contínuas atualizações dele se devem fazer. Nalguns telemóveis e nos computadores há constantes atualizações que, às vezes, nos aborrecem porque impedem o progresso do nosso trabalho. Há uns meses tive que fazer uma atualização profunda ao meu computador, no disco de armazenagem havia demasiadas coisas, estava demasiado cheio. A atualização do computador permitiu que este aligeirasse o seu funcionamento.

Pedindo desculpa pela comparação, a contemplação é o que permite agilizar a nossa vida, para que responda velozmente aos apelos de Deus. Para que a nossa vida tenha sentido é preciso algo muito forte que lhe garanta este sentido e isso é contemplação.

A contemplação acresce a capacidade de acolhimento. O Beato Jordão disse de S. Domingos que todos cabiam no seu coração. A contemplação alarga as portas do coração porque nos marca pela experiência do amor que tem a sua fonte em Deus. Também disto é particularmente importante sublinhar: a contemplação cristã torna-nos mais humanos.

Num tempo marcado pelo stress, mesmo a pandemia nos trouxe novas variantes dele, procuram-se técnicas para controlar os níveis de ansiedade: yoga, técnicas respiratórias, reiki, etc. Houve quem tentasse no campo cristãos de confundir técnicas antisstress com contemplação cristã. A contemplação cristã não nos quer colocar num estado de pleno domínio do corpo pela mente, não quer levar a nenhum tipo de insensibilidade. Em Domingos ela queima o coração, não produz nenhum êxtase ou qualquer outra experiência particular, apenas faz arder o coração de amor.

Outros santos da Ordem como Catarina de Sena ou Martinho de Lima tiveram êxtases, levitação, estigmas, bilocação. Estes sinais credibilizaram a excelência da sua caridade vivida em grau heroico, mas esses sinais não são os sinais fundamentais da contemplação dominicana, esta é antes o alimento do zelo pela pregação e salvação das almas. O nosso Pai não os teve é seguramente, para nós, o modelo do contemplativo.

Ser contemplativo significa crescer em humanidade. A forma de vermos a sua autenticidade é a sua humanidade. Apesar das suas experiências místicas, Martinho de Lima não ficou conhecido pelos fenómenos sobrenaturais, mas pelo seu amor pelos pobres, pela sua humildade e por não fazer aceção de pessoas num acolhimento que parecia uma tenda que nunca parava de crescer. Esta é a forma da contemplação de que nos torna ao mesmo tempo plenamente contemplativos e plenamente apostólicos.

Na boa tradição não se pode falar de vida contemplativa sem uma referência à vida ascética. Hoje não gostamos desta palavra nem do que ela representa. Alegando as nossas mazelas e a idade, dizemo-nos dispensados de práticas ascéticas. Temos certamente alguma razão, se considerarmos que excessivos jejuns ou longas horas de joelhos de tornam incomportáveis. Mas será isso o valor mais importante que o ideal ascético nos propõe?

No texto que líamos no início da reflexão lembrávamos que Domingos se socorria da leitura das Conferências dos Padres de Cassiano. Este foi um autor viveu nos séculos IV-V, morreu num mosteiro em Marselha, mas soube traduzir na sua obra o espírito e sentenças dos Padres do deserto. É um texto que gosto de ter à mão porque nos dá o sentido da contemplação na sua profundidade. Os Padres do deserto foram, certamente grandes ascetas, mas o seu grande legado prende-se sobretudo com a vitória sobre si mesmo, o crescimento na humildade, a prática das virtudes inerentes ao estado monástico e a obediência. É muito significativo que o pregador que foi Domingos encontrasse nestes escritos a inspiração para a sua vida, com uma sensibilidade tão forte pela salvação das almas. Então como pode a espiritualidade monástica, ser tão importante para o dominicano? Eu creio que aqui tocamos um ponto importante para a nossa reflexão: o equilíbrio entre o cuidado pelo desenvolvimento pessoal da virtude e o serviço apostólico. Somos anunciadores de uma mensagem de conversão, mas como é que vivemos essa tensão de conversão que deve marcar também a nossa caminhada.

Não temos porque buscar coisas extravagantes, mas a ascese da humildade, a ascese do silêncio, a ascese da obediência, são outros tantos caminhos que nos abrem ao amor pelo Senhor e pelos irmãos, onde não há busca de conversão pessoal não haverá senão o falso zelo pelo bem do próximo.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


À MESA COM DOMINGOS: A mesa do estudo

3ª Conferência: A mesa do estudo

“Transcorridos na inocência os anos da sua infância, foi enviado a Palência, onde então florescia um estudo geral. Assim começou o jovem Domingos a aplicar-se com diligência ao estudo deixando de lado as frivolidades em que se costuma viver durante a adolescência.”

É assim que Rodrigo Cerrato nos descreve a formação de S. Domingos desde tenra infância. A tradição traz até nós, também, a memória de um tio seu materno sacerdote em Gumiel de Hizán, povoação não muito distante de Caleruega, junto do qual teria crescido e onde teria aprendido as primeiras letras.

Ainda na região há alguns dados que indicam uma aproximação ao Mosteiro de La Vid, hoje ocupada pelos Agostinhos, mas naquela altura ocupada pelos Premonstratenses. As primitivas Constituições que seguramente têm mão de S. Domingos indiciam proximidade a esta Ordem Canonical. Quando visitamos La Vid nos dias de hoje sempre ouvimos dizer aos religiosos Agostinhos que com toda a certeza S. Domingos aí terá feito uma parte da sua formação cultural e eclesiástica.

Cruzando todos estes dados podemos concluir que S. Domingos terá tido uma sólida formação, nem sempre comum no seu tempo. A comunidade de Osma da qual irá participar, nascida da reforma gregoriana, começada um século antes do nascimento do nosso Pai, era uma comunidade de gente culta como o atestam os documentos que hoje aí se podem achar.

Uma mesa que S. Domingos frequentou foi a difícil e penosa mesa do trabalho intelectual. Rodrigo Cerrato dá-nos a indicação de que S. Domingos para conseguir uma maior agilização da sua mente deixou, por mais de dez anos de beber vinho, após os quais por enfermidade do estomago contraída o voltará a tomar, mas amplamente misturada em água.

Havia um dominicano brasileiro que passou por Portugal nos início da década de 50 do século passado, que deixou um pequeno folheto aos estudantes sobre o estudo e referia-se a ele como “haec est poenitentia nostra”.

O estudo não é uma tarefa fácil, é mesmo um exercício extremamente exigente. Na sua obra “A vida intelectual” o P. Sertillanges define-o como um exercício que formata toda a vida cristã, não pode coexistir com a mentira, com a vaidade, com as paixões. A par do treino desportivo, podemos também dizer que o estudo exige um treino do espírito, eu diria exige uma certa da busca da santidade. O percurso e o caminho da santidade na vocação dominicana exige o estudo.

Ás vezes digo, meio a brincar meio a sério, quando as conversas apenas apontam para a superficialidade das respostas: “olhe que a nossa teologia não pode ser a da mulher do merceeiro da esquina à espera da opinião da última freguesa”.

Começo que recordar que o estudo se opõe à curiosidade. A curiosidade salta como a borboleta de flor em flor, sem nunca se posar por muito tempo. A grande oferta que os meios de comunicação atual nos oferece nem sempre nos ajuda a aprofundar as coisas, mas abafam-nos com novidade chamativas. Infelizmente mesmo em Igreja faz-se a proposta de um sem número de coisas que nunca ficam suficientemente amadurecidas porque são demasiadas. Sabemos que comer demais causa indigestão, tal pode acontecer com o excesso de oferta. A estudiosidade exige tempo, espaço, deve ser doseada para se tornar meio de formação e não apenas de informação. No nosso tempo há excesso de informação e falta de formação.

O recente Capítulo da Ordem realizado em Bin Hoa no Vietnam exorta as comunidades dos irmãos a que se criem nas comunidades condições para se poder realizar esta atividade que, para nós, é de importância crucial. Entre estas condições avulta o silêncio onde a Palavra adquire forma no nosso coração.

Eu sei que estamos entre irmãos e irmãs adentrados na vida, com uma multiplicidade de atividades e empenhamentos que nos agarram, mas nem por isso podemos por de parte o estudo. Vejo, com muita alegria, o empenhamento da Madre Geral na formação contínua das Irmãs, um estudo ajustado à vida, interpelativo, com sugestões que ajudam a compreender a importância do estudo para a vida. Não é um estudo para diplomas, é um estudo para crescermos interiormente percebermos melhor porque estamos aqui e o sentido da nossa vida.

Ao longo dos anos que estive em Roma pude constatar a importância do estudo em comunidade. Era uma comunidade onde quase todos os dias havia gente que partia e gente que chegava, eramos trinta de mais de 15 nacionalidades distintas, mas o estudo partilhado era uma meta onde todos nos empenhávamos, porque também o estudo é uma tarefa comunitária onde todos, mesmos todos independentemente dos seus títulos académicos, podíamos participar.

O último Sócio do Mestre da Ordem, Vivian Boland dizia muitas vezes que na Ordem o mais importante a fase mais importante da formação não é formação inicial (noviciado, juniorado, etc.) mas a formação continua. Dizia também que a formação tem sempre várias fases: humana, espiritual, doutrinal e apostólica que se devem atualizar de forma continuada. Hoje isto é doutrina comum da Congregação para a Educação Cristã.

O estudo e o interesse por ele é fundamental para manter viva a nossa vocação, para que esta mantenha o seu sentido e para não nos tornarmos autómatos no naquilo que fazemos.

Mas o objetivo do estudo na Ordem tem um sentido apostólico. Tudo na nossa vida o tem: fomos fundados para a salvação das almas e é por elas que devemos despender a nossa vida. O estudo é um ato supremo de caridade. Escrevia dizem que alguns estudam para edificar os outros e isso é caridade. Esquecemos que a caridade tem muitas facetas e uma delas é ajudar as pessoas no seu caminho para o encontro com a verdade, nunca impondo nada, mas iluminando dúvidas, ajudando a encontrar o justo sendeiro no meio dos cruzamentos que a vida propõe. Tal como a pregação o estudo e devemos sublinhar uma altíssima forma de amar o próximo.

Este estudo não se confina a diplomas sobre os quais tantos repousam, mas um esforço continuo, quotidiano para descobrirmos e darmos a conhecer o rosto de Deus. Práticas cujos frutos alimentaram tantas gerações, como a da leitura espiritual são práticas de autêntico estudo que nos alimentam e nos dão horizontes no nosso caminho.

Há uma verdadeira ascese que esta atitude sapiencial exige de cada um de nós.  Dos textos mais belos do AT são os textos sapienciais. Sempre me encantaram, neles podemos perceber como a sabedoria e a vida andam de mãos dadas. Estes textos são dão-nos a perceber como ciência humana e sabedoria divina se dão as mãos.

Ainda com relação ao estudo peço para fazer ainda dois pequenos excursos o primeiro é sobre a verdade. A partir do século XIV encontramos representações de Domingos abençoando a Inquisição, realidade absolutamente falsa e desfocada no tempo. Mas não falta um certo ar inquisitorial na forma de afirmação da Veritas própria da nossa vocação e espiritualidade. Conheci muita gente na Ordem que afirma o seu serviço à verdade com um forma de intransigência muito afastada da forma como a Igreja de hoje afirma a verdade do Evangelho e certamente também muito distante da forma como a viveu S. Domingos. A pregação de Domingos afastou-se voluntariamente da Cruzada, propõe a verdade sem segurança do poder, propõe-na no diálogo humilde de um caminhante que se cruza com os outros nas praças das cidades, sem autoridade nem poder especiais. A verdade não é mais verdade porque proclamada a partir de um pedestal. Antes a verdade proclamada a partir da humildade, respeitando o percurso do outro e mesmo o seu erro faz com que a Verdade se torne melhor aceite. O Papa Bento XVI escrevia: “A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira”. Era assim que começava o belíssimo texto que ficou conhecido pela expressão “Veritas in caritate”, retirada da Ef 4,15. O estudo que leva a uma certa forma de poder e a uma proclamação da verdade orgulhosa e “inchada” (lembrando a expressão de Paulo na 1ª Cor 8,1)..

Uma outra dimensão é a ligação entre o estudo e a misericórdia. Como já dissemos anteriormente foi em Palência que S. Domingos vendeu os seus livros, anotados pelo próprio punho, para matar a fome a alguém. É bom sublinhar a ligação entre a misericórdia e o estudo. Os estudos de Domingos não o afastaram das necessidades mais prementes dos seus contemporâneos, pelo contrário, despertam-no para as necessidades do próximo. Já antes tinha falado da ligação entre o estudo e a caridade, agora queria referir-me para a ligação entre o estudo e a misericórdia. Quando lembramos a comunidade da Hispaniola ardente na defesa dos direitos dos povos originários, deparamo-nos com uma defesa com base em boa teologia, como percebemos haver no segundo sermão de Montesinos. O estudo é base para uma ação marcada pela misericórdia já que esta implica uma atuação em que razão e coração se têm que conjugar para uma melhor resposta aos problemas dos outros.

A mesa do trabalho em Palência é uma escola para o anúncio da Palavra que Domingos levará a cabo e para o qual fundou a Ordem dos Pregadores.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


À MESA COM DOMINGOS: A sua mesa na casa de Caleruega

2ª Conferência: A sua mesa na casa de Caleruega

Somos fruto de uma educação, de uma casa, de uma família. A fé, mas também a partilha, a sensibilidade aos problemas dos outros e dos seus sofrimentos vêm-nos do berço onde nascemos. Também isso acontece com S. Domingos tal como Rodrigo de Cerrato nos diz na vida de S. Domingos que escreveu na segunda metade século XIII. Escutemos o texto em que trata do perfil de sua mãe a Beata Joana de Aza: “A sua mãe era muito compassiva; em certa ocasião em que, por disposição de Nosso Senhor, estava ausente o venerável Féliz, pai de S. Domingos, a sua mãe, contemplando a angústia dos necessitados, e depois de dar muitas voltas ao que era seu, repartiu entre os pobres um tonel que estava cheio de vinho, que era muito célebre naquele lugar. Quando voltava, já próximo de Caleruega saíram ao encontro do seu marido vizinhos que lhe comunicaram que o vinho tinha sido distribuído pelos pobres. Quando chegou casa, diante de todos os vizinhos, disse à sua mulher que lhes mandasse servir o vinho daquela cuba. Temendo ela uma não pequena confusão, entrou na adega onde estava a mencionada cuba de ajoelhando-se, orou ao Senhor dizendo: “Senhor Jesus Cristo, ainda que não seja digna de ser escutada por causa dos meus méritos, atende-me por meu filho e teu servo a quem consagrei ao teu serviço”. A mãe estava convencida da santidade do filho. Tendo-se levantado cheia de confiança, dirigiu-se ao tonel que encontrou a transbordar de um vinho delicioso. Agradecendo ao Senhor de todos os bens, mandou-o repartir pelo seu marido e pelos demais presentes. Todos ficaram admirados”.

Sempre gostei muito deste relato. De noviço gostava de descer a este lugar onde se identificou ser a adega da casa dos pais de S. Domingos e passar ali um momento de oração. O lugar é calmo e a sua obscuridade convida ao recolhimento.

Uma primeira nota que acerca deste texto é a sua ligação com o que o precede: esta referência à vida da mãe de S. Domingos segue à referência aquilo que S. Domingos fez em Palência ao vender os seus livros, anotados por mão própria para matar a fome às vítimas da situação difícil que a cidade vivia. Por isso o texto começa: “Na verdade…”

O autor quer assim dizer que a generosidade que Domingos manifestou para com os pobres vinha-lhe da educação materna onde aprendeu um jeito de estar e de ser. Os valores aprendidos na família são um fundamento importante para uma vida consagrada. De casa Domingos trouxe o conceito de generosidade que desenvolveu com as cores do Evangelho.

Porém gostava de trazer à nossa reflexão uma outra dimensão deste milagre que sendo belo pode ficar preso ao pitoresco da situação.

Na nossa cultura popular conhecemos o milagre atribuído à Rainha Santa, quando o pão se transforma em flores num dia frio de Janeiro. Não vou fazer exegese do texto nem sequer pronunciar-me sobre a sua autenticidade, afinal sempre podemos afirmar que Santa Isabel foi uma grande mulher cheia de uma grande caridade para com os pobres e aflitos, como o tinha sido Santa isabel de Hungria sua parente, que com ela partilhou a mesma espiritualidade franciscana. Na vida destas santas faz-se referência ao pão, essencial para matar a fome.

No caso da beata Joana não é de pão que falamos, mas de vinho. Parece que o vinho não é essencial à vida como o é o pão.

Esta constatação sempre me intrigou. O próprio Domingos vendeu os seus livros para matar a fome. A água sempre abundante na fonte da estrada que conduz a Valdeande, aldeia próxima de Caleruega dá água suficiente para matar a sede.

Mas quais são as sedes do homem?

O Cardeal Tolentino há uns anos pregou à Cúria Pontifícia um retiro sobre a sede. A sede mais funda do homem é aquela a que só Cristo pode responder, aquela que nos leva a aproximar-nos de Cristo e a beber do cálice do seu sangue que para nós escorre a partir da cruz.

Há uma sede que a água não sacia se não for transformada em vinho como nas bodas de Caná.

Há sede de alegria, sede de razões de viver que só o vinho novo da graça. Estou a falar com irmãs cuja fundadora intuiu que não basta o pão para não ter fome, é preciso educar. Há muitas coisas na vida que que vão para além das necessidades fisiológicas, mas sem as quais não podemos, de fato viver. Os tempos de pandemia mostraram a muitos dos nossos idosos que apesar dos bons cuidados prestados nas instituições onde se encontravam internados a falta do abraço e da proximidade dos seus dava à vida um travo amargo. Podemos até ter tudo, mas esse tudo não é senão uma mão cheia de nada.

O milagre da adega de Caleruega como o das bodas de Caná conduz-nos a refletir sobre a essencialidade do necessário para a vida que vai bem mais além do que os umas fatias de pão ainda que do melhor trigo.

Afinal o que é essencial à vida? A mesa da casa de Féliz e Joana em Caleruega como a mesa representada na Mascarella falam-nos de essencialidades, que devemos ter em conta.

Vou falar de algumas que me parecem fundamentais:

Ter respostas para as grandes interrogações, que por vezes me queimam por dentro: donde venho? Para onde vou? Que sentido tem a minha vida?

Ser considerado como pessoa. Ultimamente tem-me acontecido ler bastante sobre o holocausto judeu; a par do sofrimento, da fome, do medo, pairava naquela gente o sofrimento de já não serem tidos como pessoas.

Descobrir caminhos de felicidade. No percurso de muita gente acumulam-se experiências de busca de felicidade onde esta não se encontra, caminhos errados que esvaziam, que encolhem a alma. Porventura interrogo-me se mostramos com a nossa vida viver um caminho de felicidade sem, porventura, esconder a dificuldade, luta interior e mesmo o fracasso.

– O encontro com o rosto bondoso de Deus. Tanto caminhos e descaminhos para o encontro com Deus. O erro que Domingos encontrou no caminho de tanta gente que buscava um Deus e que encontrou caminhos de desafirmação da bondade da sua Criação, incentivou-o no compromisso com o anúncio do verdadeiro Deus.

Afinal é preciso oferecer o vinho novo, substituir a água das talhas por um vinho que permita a continuação da festa das núpcias do Cordeiro com a humanidade. Possivelmente os convidados de Caná e de Caleruega terão bebido bem, talvez tenham ficado com coração alegre como sugere o Salmo. Nestes dias, logo na primeira conferência do Cardeal Cantalamessa à Cúria Pontifícia o pregador da Casa Pontifícia aludia à “sóbria ebriedade” que o Espírito provoca no coração do crente. Servir o vinho em Caleruega, servir a Palavra, é servir a bebida que se toma com aquela “epiousion” (sobre substancial) aquele do qual “omnem delectamentum in se habentem” (que contém toda a doçura). Uma bebida e um alimento que saciam dimensões da pessoa humana em dimensões de uma outra essencialidade.

Pode parecer que nos afastámos muito do conto original com que iniciámos esta segunda reflexão, ou talvez não. Naquela tarde em Caleruega serviu-se o vinho da alegria, da convivialidade que sustentou os que nada tinham e deu esperança aos que tinham alguma coisa. Também este sinal é preanuncio dessa mesa representada na Mascarella em que irmãos retomam as forças para recomeçar o caminho do serviço do anúncio do vinho novo do Espírito.

Por certo que na sua casa paterna e materna começou aquele milagre o da vida de alguém ao serviço dessa ébria alegria que perscruta apenas no olha para Salvador.

Seremos nós capazes de oferecer esse vinho de alegria e fraternidade.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


À MESA COM DOMINGOS: O jubileu da santidade de Domingos

Retiro: À MESA COM DOMINGOS

Fátima, 7 a 12 de Março 2021

1ª Conferência: O jubileu da santidade de Domingos

Em 6 de Agosto de 1221, S. Domingos falecia em Bolonha, deixando os seus religiosos chorosos pela sua partida, mas confortados pela sua promessa de que lhes seria mais útil no Céu que na terra.

A Ordem escolheu como ícone deste tempo de jubileu uma pintura em que S. Domingos é representado sentado à mesa. Esta “tavola”, como ficou conhecida, é um painel de 43/572cm, conservado na igreja bolonhesa de Santa Maria della Mascarella. Este lugar e foi a primeira casa que os dominicanos tiveram em Bolonha quando aí chegam em 1218, antes de se transferirem para S. Nicola delle Vigne sob os auspícios da família da Beata Diana Andaló.

Esta pintura é a mais antiga representação de S. Domingos. O nosso fundador está já cingido de uma auréola, o que indica já ter sido canonizado, o que aconteceu em Julho de 1234. A pintura foi indicada com sendo obra de um autor ignoto do norte de Itália e realizada entre 1235 e 1250. Por ser a primeira representação de S. Domingos, é importante refletir porque terá sido essa a forma escolhida para o fazer. Certamente que tem a ver com a referência com o célebre milagre de Domingos no convento de S. Sixto (milagre ao qual voltaremos num outro momento) mas o significado desta representação vai certamente mais longe.

S. Domingos é representado rodeado por 24 irmãos (12+12), algum comentador diz que parecem vir de todas as partes da Europa, talvez para um Capítulo Geral, que naqueles tempos era anual, e se reunia uma vez em Paris e outra em Bolonha. Mais que qualquer milagre que aqui não se encontra figurado vê-se apenas um irmão no meio dos irmãos à mesa e este é definitivamente a coisa mais importante e cheia de consequências.

Na carta com que o Mestre da Ordem abre este ano jubilar afirma o seguinte:

« Le thème de la célébration du jubilé est À table avec saint Dominiquequi s’inspire de la table Mascarella, la table sur laquelle le premier portrait de saint Dominique a été peint peu après sa canonisation. Ainsi, nous célébrerons saint Dominique non pas comme un saint seul sur un piédestal, mais comme un saint jouissant de la communion d’un repas avec ses frères, réunis par la même vocation de prêcher la Parole de Dieu et de partager le don de nourriture et de boisson de Dieu ».

Gostava de sublinhar duas ideias que me parecem fundamentais: a primeira a ideia do pedestal. Muitas vezes as imagens dos santos estão mesmo sobre um pedestal que, de alguma maneira, nos leva a pensar na distância entre o santo e a nossa vida. Devo dizer que não tenho nada contra isso, mas devemos estar despertos para uma ideia de santidade mais próxima, atrevo-me a dizer mais humana e menos celestial. Fico contente que a primeira representação do nosso Pai seja a de um homem, embora nimbado pelo sinal da santidade, próximo, alegre irmão entre os irmãos à volta de uma mesa. Nada de extraordinário, tudo é próximo, tudo é humano.

Há outras representações de Domingos que eu gosto muito. Aprecio uma do El Greco, Domingos parece uma tímida flama de uma vela, que certamente alumia e aquece, ou de Angélico, tão conhecida acentuando o seu aspeto contemplativo. Mas esta é a primeira de todas: a de um irmão entre os irmãos, partilhando com eles o pão. Esta é uma dimensão da santidade de Domingos que nunca é demais enfatizar.

A segunda dimensão é a de uma santidade que cresce na fraternidade, não cresce sozinha, não é uma coisa rara. O santo aparece muitas vezes como uma coisa rara, com dons que o afastam do comum dos mortais. Nada de uma santidade rara, mas também nada de uma santidade a florescer à margem da fraternidade. Esta santidade de Domingos manifesta-se antes de mais na vivencia com os outros, na construção da comunidade, no ser como lhe foi chamado “consolator fratrum”. Podemos conceber a santidade com o conceito “de apesar de…” para perceber uma santidade com os outros, uma santidade ao serviço dos outros”.

Ao refletir nestas coisas vem-me ao espírito esta passagem da Escritura:

“1 A sabedoria construiu sua casa; ergueu suas sete colunas.

2 Matou animais para a refeição, preparou seu vinho e arrumou sua mesa.

3 E enviou as servas para fazerem convites desde o ponto mais alto da cidade, clamando:

4 “Venham todos os inexperientes! ” Aos que não têm bom senso ela diz:

5 “Venham comer a minha comida e beber o vinho que preparei”.

A santidade de Domingos aparece-nos como uma refeição que Domingos preparou para nós, foi ele que no-la preparou para nós e essa refeição parte da experiência da vida fraterna.

A Regra de S. Agostinho que todos professámos começa por lembrar:

1. Isto é o que vos mandamos observar a vós que estais no mosteiro.
2. Em primeiro lugar, já́ que para isto vos reunistes na comunidade, vivei unânimes na casa e tende uma só́ alma e um só́ coração dirigidos para Deus.
3. E não tenhais nada como próprio, mas tudo vos seja comum.”

O nosso último Capítulo Geral manifesta grande preocupação por um mal que é muito próprio da vida religiosa dos dias de hoje: o individualismo. Os meios tecnológicos, que são uma grande mais valia dos dias de hoje, nem sempre ajudam a uma sã relação com os irmãos. O individualismo é uma ameaça real para a nossa vida comum.

Certamente não chegaremos ao que eu próprio observei aqui há uns anos num restaurante de Roma: cinco pessoas à mesa interagindo cada uma com o seu telemóvel e, por meio dele, comunicando com alguém que ali não estava, mas não comunicando com quem estava ali à sua frente.

A nossa época e as nossas comunidades não escapa vive graves deficiências na capacidade de comunicar. Os meios tecnológicos ajudam e agravam um mal que sempre encontrámos: estar dentro com o coração fora.

A santidade de Domingos ajuda-nos a perceber uma forma de santidade orientada para o irmão/irmã, que vive contigo, que está ao teu lado, com o qual deves estabelecer uma relação profunda: “um só coração e uma só alma” Ac 4,32.

Um quadro traça um modelo de santidade daquele a quem chamamos Pai. A santidade de Domingos gera comunhão, gera família, gera fraternidade numa dimensão que somos chamados a descobrir e a aprofundar.

O meu percurso nestes dias de retiro é descobrir os diversos lugares onde Domingos se sentou à mesa, mesa lugar de comunhão, lugar de escuta, lugar de conversão, lugar de decisão. Vamos revisitar textos nossos conhecidos da vida de Domingos, não pretendo dizer nada de novo, desejo tão somente que a contemplação de Domingos reacenda em nós a beleza e o sentido da nossa vocação.

Na celebração que deu início ao jubileu o Arcebispo de Bolonha, Cardeal Zuppi afirmou: “esta mesa convida-nos à festa e à convivialidade. S. Domingos ensina-nos a vestir o vestido de festa, porque esta mesa é alegria, é plenitude…”

Contemplamos uma santidade tão humana, tão próxima, tão alegre, tão afetuosa.

Desde já peço desculpa por todas as vezes em que não poderei dizer por palavras capazes aquilo que só o coração pode exprimir. Tudo isto só se descobre se nos sentarmos à mesa com Domingos e isto é o convite para o nosso percurso.

Não sejamos como o Mr. Bean que adormecia olhando para os quadros que tinha por missão guardar. Nós temos um quadro onde um projeto de vida se desenha para nós.

Fr. Rui Carlos Almeida Lopes, OP


Carta do M.O. – Santa Margarida Di Castello

Roma, 24 abril 2021
Prot. 74/18/547 Margherita di Città di Castello
Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me colherá, Salmo 27:10


A todos os Provinciais e Vice-provinciais,
A todos os membros da Família dominicana

Caros irmãos e irmãs,

Com gratidão a Deus, doador de todas as coisas boas, tenho o prazer de anunciar a canonização iminente (canonização equipolenta) da nossa irmã MARGARIDA DE CITTÀ DI CASTELLO (Margherita della Metola – 1287-1320).

A história da nova santa da Família Dominicana é ao mesmo tempo desoladora e comovente. Ela nasceu cega, tinha a coluna vertebral deformada, um braço malformado, uma perna mais curta que a outra, foi mantida escondida dos olhos curiosos durante toda a sua infância e mais tarde foi abandonada pelos seus pais. Foi adoptada por uma família devota e amorosa e tornou-se uma «terceira» dominicana (mantellata). Embora parecesse precisar de obras de misericórdia corporal devido à sua condição física, a Beata Margarida realizou obras de misericórdia corporal inspiradoras: cuidou dos doentes, confortou os moribundos e visitou os prisioneiros. Ela era como a pobre viúva da parábola que deu generosamente apesar de não ter quase nada (Lucas 21:1-4).

A Beata Margarida era cega, mas via a bondade nas pessoas; nasceu com uma discrepância estrutural no comprimento das pernas, mas caminhava com graça porque sabia que andava humildemente na presença de Deus.

A Beata Margarida amava com um coração magnânimo, embora não fosse amada quando era criança. Na verdade, ela era uma “curandeira ferida”, uma pessoa com uma deficiência que permitia que aos outros serem  melhores, uma proscrita que acolhia os quebrados; de facto, ela era uma bela imagem do amor transformador de Deus.

A veneração da Beata Margarida como mulher santa de Deus esteve circunscrita à Itália e à Ordem Dominicana até ao século XIX. Graças aos membros da família dominicana que promoveram o seu exemplo de santidade, ela tornou-se conhecida como uma santa mulher de Deus e venerada não só na Úmbria e nas Marcas em Itália, mas também nos Estados Unidos da América e nas Filipinas.

A pedido da Ordem, de fiéis leigos, religiosos e religiosas de todo o mundo, cardeais e bispos, o Papa Francisco aprovou a canonização da Beata Margarida em 24 de Abril de 2021. Agradeço à Postulação da Ordem que, desde o tempo do Fr. Innocenzo Venchi op. até ao do Fr. Gianni Festa op.,  trabalharam com grande dedicação e diligência para realizar a canonização da nossa bela e abençoada Irmã Margarida.

Alguns de vós podem perguntar-se: já temos tantos santos, e o nosso calendário litúrgico está quase cheio de festas e memórias, porque é que continuamos a promover causas de santidade? Fazemo-lo porque, como Fr. Gianni nunca se cansa de nos lembrar que “a santidade destes irmãos e irmãs é um sinal visível da vitalidade e actualidade da Ordem“. A canonização de Margarida di Castello representa para todos nós uma confirmação renovada de que a vida dominicana, em toda a sua plenitude e riqueza, é verdadeiramente um caminho de santidade.

Por conseguinte, peço aos priores provinciais e superiores da família dominicana que façam circular esta carta, juntamente coma breve biografia da nova santa que a acompanha nas vossas comunidades, especialmente nas casas de formação. Em especial,  encorajo-vos a juntarem-se a nós em oração, quando, em Città di Castello, numa data a anunciar posteriormente, tiver lugar a cerimónia oficial da inscrição da Beata Margarida no Livro dos Santos, durante a celebração da Eucaristia presidida pelo Cardeal Marcello Semeraro, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos.

Que Santa Margarida de Città di Castello interceda junto do Senhor por toda a Família Dominicana.

Fr. Gerard Timoner, OP, Mestre da Ordem

PEQUENO ESBOÇO BIOGRÁFICO

Margarida nasceu por volta de 1287 no castelo de Metola, em Massa Trabaria (na fronteira entre a Umbria e as Marcas), não muito longe do Mercatello del Metauro, nos territórios da Igreja. O seu pai Parisio era o senhor do castelo, e era chamado ‘cattano’ (capitão), um título que já pertencia aos seus antepassados; o nome da sua mãe era Emilia.

Mas a criança tinha entrado no mundo cega e deformada, e os seus pais nobres e ricos não podiam suportar uma vergonha que ofendesse o orgulho da família. Então o pai trancou a sua filha numa cela adjacente à igreja do castelo para que “a vergonha” ficasse escondida dos olhos do mundo. A menina aceitou esta decisão sem se revoltar, mantendo intacta a sua serenidade. Passou a sua infância na solidão, dedicando-se à oração e à contemplação, em comunhão com Deus, numa profunda quietude e paz espiritual. Após uma curta estadia num castelo em Metauro, necessária após as revoltas militares na região, os seus pais levaram-na a Città di Castello, ao túmulo de Giacomo († 1292), um frade leigo franciscano que tinha morrido recentemente em odor de santidade. Eles esperavam que o abençoado pudesse trazer a cura da sua filha, mas o milagre há muito esperado não aconteceu. Tendo esta última tentativa falhado – diz-nos uma biógrafa do século XIV – abandonaram-na em Castello “sem piedade, sozinha, sem pensar nas suas necessidades, privada de toda a ajuda humana“.

Durante algum tempo, a rapariga indefesa levou uma vida perdida, mendigando pão; depois encontrou refúgio no pequeno mosteiro de S. Margherita. Mas foi um breve parêntese, porque a sua conduta de vida, o ascetismo rigoroso que observou, os seus avisos suscitaram a inveja das freiras. Incapazes de suportar a comparação com um exemplo tão inatingível, as freiras também a mandaram embora com muitas acusações e insultos. Após esta enésima traição, Margherita foi finalmente acolhida por um casal profundamente piedoso, Venturino e Grigia, que lhe reservaram um pequeno quarto na parte superior da sua casa, para que pudesse dedicar-se livremente à oração e à contemplação. A sua generosidade seria recompensada por Margherita, que colocou os seus carismas excepcionais ao serviço dos seus pais adoptivos e do seu círculo de família e amigos. Dedicou-se à formação e educação cristã dos filhos dos seus benfeitores, foi uma guia bondosa e autoritária para muitos que lhe procuravam conselhos e conforto, e em mais de uma ocasião protegeu os seus amigos de graves perigos. Ela também se preocupava com os pobres e miseráveis da cidade. Apesar de ser cega e deficiente, conseguiu ser uma irmã caridosa para todos os infelizes.


Na casa de Grigia e Venturino a menina passou o resto da sua curta e simples vida, dividindo o seu tempo entre a oração, a vida contemplativa e o trabalho de caridade. Ela jejuava sempre, quase nunca dormia, e quando estava sonolenta deitava-se no chão e nunca se deitava na cama.
Partilhando o sofrimento de Jesus, Margarida sentiu-se ligada ao Esposo celestial, identificou-se com ele e esta vida de união deu-lhe uma segurança e alegria inefáveis. Depois de vestir o hábito de penitência dos frades pregadores, ia diariamente à sua igreja, onde se confessava todos os dias e participava com grande devoção na celebração da Eucaristia. Muitas vezes, durante a missa, teve êxtases maravilhosos.

Quando a sua doença piorou, mandou chamar os frades para receber os sacramentos, deu graças a Deus e morreu em perfeita serenidade de espírito a 13 de Abril de 1320: Margarida tinha 33 anos de idade.


406 – Laicado Dominicano Março/Abril 2021

 


Ladaínha a São José

Senhor, tende piedade de nós
Cristo, tende piedade de nós
Senhor, tende piedade de nós
Cristo, ouvi-nos.
Cristo, atendei-nos.
Pai celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Santa Maria,
São José,
Ilustre descendente de David,
Luz dos patriarcas,
Esposo da mãe de Deus
Castíssimo guarda da Virgem,
Pai nutrício do Filho de Deus,
Chefe da Sagrada Família,
José justíssimo
José castíssimo,
José fortíssimo,
José obedientíssimo,
José fidelíssimo,
Espelho da paciência,
Amante da pobreza,
Modelo dos trabalhadores
Glória da vida de família,
Guarda das virgens,
Consolação dos infelizes,
Sustentáculo das famílias,
Esperança dos enfermos
Padroeiro dos moribundos
Protector da Santa Igreja.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senghor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.

V. Estabeleceu-o Senhor da sua casa.
R. É príncipe de todos os seus bens

V. Oremos: Ó Deus, cuja inefável providência se dignou escolher o bem-aventurado S. José para esposo da vossa Santíssima Mãe, fazei que mereçamos ter por intercessor no Céu aquele que na terra veneramos como protector: Vós, que sois Deus com o Pai, na unidade do Espírito Santo.
R. amen